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De preto pra preto

De preto para preto, entender a própria história

Experiências socioculturais de afro-brasileiros trazem novas narrativas e emancipam corpos negros 

Preto

Texto: Vinícius Paiva 

Imagens: Adriana Silva, Divulgação e Felipe Menezes 

“Se você quiser saber mais dessas pessoas, você terá de dobrar seus joelhos”, arremata a doutora em Artes Visuais, Rosana Paulino, ao se referir a uma de suas instalações, Amas de Leite. Nela são retratadas as silhuetas das escravizadas negras que eram obrigadas a amamentar os filhos das mulheres brancas. Rosana relata que foi convidada a conhecer uma pequena senzala histórica em Campinas e percebeu que deveria usar o próprio ambiente e os recursos que o compõe para retratar aquela realidade. 

A artista utilizou um material que mistura argila e papel para mostrar as mãos das mulheres envoltas em fitas brancas, representando o leite que era dado aos bebês filhos dos colonizadores. “Era como se a criança fosse a dona da mulher. Mas que sociedade é essa que conseguimos perceber essas complicações ainda nos dias de hoje? Afinal, a babá cuida, educa, dizem que é como se fosse da família. Mas quando envelhece, vai para a rua. Que afetos são esses?”, indaga.  

 Vozes do Silêncio 

Enquanto a mídia hegemônica representa, na maioria das vezes, a população afro-brasileira de uma maneira racista, com personagens pejorativos e clichês, o Centro Cultural UFG acolheu no mês de setembro a exposição Vozes do Silêncio, que promoveu um debate acerca do papel desempenhado pelos artistas negros na arte contemporânea brasileira. Antônio Obá, Dalton Paula, Hêlo Sanvoy, Janaína Barros, Moisés Patrício Paulo Nazareth e Rosana Paulino resgataram fatos escondidos e proporcionaram aos visitantes uma nova leitura sobre a população negra. Com base em suas vivências e percepções, os artistas debaterem em expressões artísticas assuntos como racismo, religiosidade e questões de gênero. 

Segundo o curador da mostra, Paulo Henrique Silva, a apresentação e representação dos corpos negros que compõem a exposição dão voz a milhões de corpos que são silenciados diariamente por meio de uma invisibilidade imposta e perversa, que sutilmente é capaz de violentar. “Os trabalhos instigam a refletir sobre esse corpo negro e seu potencial de expressão, compartilhando com o público toda dor gerada por um discurso racial que nega sua existência. O uso do próprio corpo dos artistas para a produção dos trabalhos conduz à concepção curatorial da mostra”, afirma. 

de preto pra preto

A violência contra os corpos negros é questionada na instalação de Helô Sanvoy ao misturar carne, sal grosso e balas de arma de fogo

Corpos políticos  

Rosana Paulino resolveu subverter uma imagem fortemente simbólica de uma mulher negra desconhecida que tem o intuito de validar a falsa ideia da inferioridade da etnia negra. Na fotografia da expedição Thayer capitaneada pelo cientista Louis Agassizque, a mulher representa a base da pirâmide social, que tem os brancos no topo. Na obra Assentamento, releitura da imagem, em vez de essa mulher ser a base da pirâmide, ela ganha vida na obra e se transforma num canal em que as raízes de baixo são a terra, a vida, e as raízes de cima formam uma espécie de céu, pensando, por exemplo, a ascensão das religiões de matriz africana. 

Rosana, ainda na mesma obra, se atenta para a história daqueles que sofreram o trauma da escravização ao deixarem seu local de origem, familiares, costumes, e serem explorados numa nova realidade insalubre. Como esse contexto histórico perdura e impacta a sociedade até hoje, resolveu costurar as obras da peça de uma forma desencontrada, como frisa a artista. “Esse é o drama do Brasil! Enquanto a conta da escravidão não for bem equacionada, não fechará. São as nossas costuras que não fecham!" 

Dalton Paula, artista negro formado pela escola de Artes Visuais da UFG, também acredita na importância de se entender a negritude e de resistir às marginalizações como corpo silenciado. Apesar de ainda produzir coisas que o incomodam, afinal muitas dessas questões já deveriam ter sido resolvidas, Dalton busca nas suas obras referências de corpos negros em diversos recortes: no terreiro, no subúrbio, na dança, entre outros espaços. "O corpo negro já é político somente pelo fato de existir e resistir".

Contar a própria história

O Brasil foi colonizado e durante esse período os exploradores massacraram milhares de indígenas, escravizaram e mataram diversos negros trazidos a força do continente africano. Mas o que os brasileiros sabem além disso? Quais histórias são fornecidas a população, em especial aos negros? Foram alguns dos questionamentos do historiador africano Elikia M’Bokolo no I Seminário de História da África e suas Diásporas, realizado na UFG em setembro. Afinal, vivemos num país onde a maior parte da população é negra e a maioria dos estudos refere-se à visão dos colonizadores, numa educação muito branca, que não traz a existência, a luta, a cultura e os costumes dos afro-brasileiros.

Segundo o historiador, o mundo arquitetou uma visão estereotipada sobre o continente africano e continua perpetuando a imagem de um território tomado por coisas negativas... “mas não é assim, por lá temos muitas coisas boas e buscamos sempre melhorar”, explica. M’Bokolo ainda aproveitou para apontar três aspectos básicos para se repensar a África e se questionar o conhecimento difundido no Brasil a respeito do continente. “Os problemas geográficos entram como primeiro marcador, pois a história da África é mundial, o continente teve relações com todas as partes do mundo”.

O segundo aspecto está relacionado a temporalidade. Para o africano, não se deve definir um determinado momento histórico com um conceito que surge anos depois. “A história da África tem sua própria duração e não se resume aos períodos de colonialismo. Devemos pensar o contexto para conhecermos o passado, entendermos o presente e produzirmos ações para o futuro”. O terceiro tópico se resume às questões sociais e questiona quem são os atores da história da África. “Não são só os reis ou imperadores. É sobre a vida do povo africano. É a coisa de todos nós. Não é só dos historiadores, precisamos intercambiá-las também”.

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Mas não é só de hoje

Lima Barreto, por exemplo, já fazia isso. O autor negro lutou contra diversas injustiças sociais ao publicar obras que questionam os privilégios de classe, além de tematizar os preconceitos de raça dos quais ele próprio era vítima, criando histórias com protagonistas e outros personagens negros. Nos dias de hoje, o autor foi homenageado com a biografia  Lima Barreto triste visionário, da autora Lilia Moritz Schwarcz, que defende: “ele era um intérprete do Brasil e pretendia um país com mais inclusão social".

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Cultura edição 91

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