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Constelação Familiar

Constelação familiar como aliada no tratamento

A terapia integrativa é utilizada no Ambulatório de Ginecologia do Hospital das Clínicas

Constelação Familiar

Texto: Carolina Melo

Ilustração: Ingrid Costa

Todo segundo sábado do mês, cerca de 150 pessoas se reúnem no auditório da Faculdade de Educação (FE) da UFG para participar do Grupo de Constelações Familiares, vinculado à atividade de extensão do Hospital das Clínicas (HC). O trabalho é direcionado às pacientes com dor pélvica crônica e também às pessoas em conflitos familiares.

Com uma abordagem sistêmica fenomenológica, a constelação familiar é uma técnica de terapia integrativa que ajuda as pessoas a se reconciliarem com as suas culpas e com os seus destinos. Aliado ao tratamento de saúde, o método contribui para um atendimento holístico do paciente. “Os currículos dos cursos de graduação na área da saúde orientam a avaliação do paciente a partir de uma perspectiva biopsicossocial e não apenas biológica. E a constelação vai propiciar o olhar para esse contexto mais completo, levando-se em conta que a doença se manifesta em um desses aspectos”, explica a médica Vânia Meira e Siqueira Campos, ex-coordenadora externa do projeto e atualmente aluna de pós-graduação da UFG.

Segundo Vânia Meira, todo sintoma e toda doença é um mensageiro dos contextos em que estamos inseridos e de nós mesmos. “Normalmente a medicina se encarrega de matar a mensagem, sem entendê-la. E com o trabalho de constelação, ajudamos as pessoas a olharem para esse mensageiro”, diz. Para José Miguel de Deus, gerente de ensino e pesquisa e coordenador do ambulatório de dor pélvica do HC, o método contribui para trazer à consciência o que está no pano de fundo. “Trata-se de uma filosofia aplicada à vida com possíveis efeitos terapêuticos. No entanto, é necessário que se compreenda que a técnica não substitui a terapia médica ou psicológica. Ela deve ser concebida como um recurso adicional para a melhoria da qualidade de vida das pessoas”, afirma.

Qualquer pessoa pode participar do grupo de constelações do HC, desde mulheres que sentem dor pélvica até interessados da comunidade. Para isso, basta levar dois quilos de alimento não perecível e disponibilizar o nome para o sorteio de quem será constelado. A cada encontro, quatro pessoas são sorteadas. A professora de pilates, Geise Luanna Ayres Mendes, 35 anos, ficou sabendo há cerca de três meses e, com dores no ventre em razão da endometriose, resolveu conhecer o trabalho. Já em seu primeiro encontro, foi uma das escolhidas. “Alguma coisa me dizia que seria eu a sorteada. Foi uma experiência única. Eu me entreguei, queria muito entender o meu problema. Palavras me faltam para descrever como foi importante. Até então, não compreendia como minha mãe e minha avó falecidas ainda estavam ligadas a mim, e também a minha relação com minha avó paterna e meu pai”, disse.

Médico e professor da UFG, José Miguel afirma que a constelação é um auxílio para a paciente entender a mensagem da dor. “Nisso, é possível obter a melhora ou permitir às pessoas a conviverem com ela”. Para Geise Luanna, a constelação contribuiu para que ela aceitasse a doença. “Não é fácil. Quando você tem uma doença, entender é muito difícil. A gente questiona: por que tinha que ser comigo, por que tem que ser assim. Descobrir certas coisas na vida é fundamental para se libertar. Não podemos ficar olhando pra trás, resmungando. A vida é seguir em frente”, disse.

A origem da dor

Entender de onde vem a dor pélvica foi, inclusive, o que motivou  José Miguel a incluir a constelação familiar como um projeto vinculado ao Ambulatório de Ginecologia do HC. Conforme lembra, desde quando era médico residente, na década de 1990, analisava cada paciente com dor no baixo ventre através da laparoscopia e, em um terço das mulheres, ele não encontrava nada, um terço tinha aderências pélvicas, e o restante, endometriose. Os índices observados no atendimento, segundo o médico, correspondiam com as pesquisas da literatura médica. “E quando comunicava à paciente que não tinha nada, ela ficava zangada”.

No tratamento da dor, José Miguel se deparava com outro dado considerado curioso. “Uma parte das mulheres com aderências, após o tratamento, não percebia melhoras, outra parte sentia a piora do quadro e havia as que obtinham melhoras por meses, mas depois a dor voltava”. No caso da endometriose, segundo ele, o controle da dor se dá por meio de medicação, mas com efeitos colaterais em muitas pacientes. “Sempre achei isso muito intrigante. Sempre fiz consultas demoradas tentando compreender o que mais ocorria com essas mulheres”.

A partir de uma investigação mais minuciosa, o médico foi identificando histórias de sofrimento vinculadas às dores pélvicas. “Com o tempo fui percebendo que grande parte das mulheres tinha conflitos existenciais, histórias difíceis na família, dores que se associam com a culpa”. Segundo José Miguel, o início da dor quase sempre coincidia com algum evento importante e dramático na vida da mulher. Também, de acordo com o médico, a maioria delas, em torno de 58%, apresentava um quadro de depressão. “Considerei que a constelação poderia ser uma aliada do tratamento e, de fato, vem sendo. A melhora por meio do método corresponde com aquela obtida por medicamentos. E chegamos a publicar essas conclusões em 2014 em artigo científico”, conta.

O Grupo de Constelações Familiares foi criado em 2006. O primeiro encontro reuniu nove pessoas. Há quatro anos o trabalho foi cadastrado como projeto de extensão oficial e passou a ocorrer no auditório da FE, em razão do crescimento do número de interessados. Participam do projeto uma aluna do mestrado e quatro alunos da graduação em medicina da UFG, mas há oportunidades para graduandos de diferentes áreas, nas quais a constelação familiar vem tendo destaque, como psicologia, pedagogia, direito, serviço social, musicoterapia, enfermagem e administração, bem como estudantes de outras instituições universitárias. Durante os encontros, acadêmicos dessas áreas são convidados a participarem da constelação como observadores.

O método

Popularizada pelo alemão Bert Hellinger, a constelação familiar é uma técnica de representação espacial das relações familiares que permite identificar bloqueios emocionais de gerações ou membros da família. Formado em Filosofia, Teologia e Pedagogia, Hellinger publicou a obra “O essencial é simples” em 1999, na qual relatou 63 casos de terapias breves em pacientes com os mais diversos sintomas e ou doenças crônicas graves nos cinco anos que antecederam a publicação. A finalidade não era curar os pacientes, mas auxiliá-los a lidar melhor com os seus problemas de saúde. No entanto, com as terapias, Hellinger observou, para a sua surpresa, que os sintomas apresentados inicialmente por diversas doenças desapareceram em parte dos pacientes, e outros passaram a conviver melhor com o problema de saúde.

Constelação

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Extensão edição 91

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