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Drogas: entre o prazer e as consequências

Educar sobre o uso e olhar para a vulnerabilidade social é preciso!

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Texto: Vinícius Paiva

"Eu comecei a beber e fumar com 12 anos, quando tive o meu primeiro ‘porre’! Fumei a primeira maconha aos 17. Aos 19, comecei a usar outras drogas, como a cocaína e o ácido, e até os 28 o uso foi quase diário”, afirmou um ex-dependente de drogas em entrevista à equipe do Programa de Educação Tutorial (PetBio) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo ele, no começo o uso era para diversão, mas com o passar do tempo, não havia mais diversão sem o uso. “Eu seria hipócrita em dizer que a droga só me trouxe lembranças ruins, muito pelo contrário, tenho muitas lembranças boas. Mas uma hora a conta vem, e mais cedo ou mais tarde o seu corpo vai cobrar essa conta”.

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As drogas fazem parte da sociedade desde os seus primórdios. Na Grécia antiga, por exemplo, o ópio era utilizado como remédio. Em certos grupos sociais, o uso de drogas é visto como algo natural, pois em alguns momentos alivia dores e sofrimentos, e em outros produz estímulos e entusiasmos. Segundo o médico Elisaldo Carlini, “drogas são todas as substâncias que podem ter efeito sobre o corpo humano”, o que inclui os remédios utilizados medicinalmente. O Brasil classifica essas substâncias em lícitas, permitidas para consumo acima de 18 anos, como o álcool e o cigarro, e ilícitas, não permitidas no país, como a cocaína e o crack.

Percepções de dependentes

Para entender as percepções de 39 dependentes  em  tratamento contra o crack, o Núcleo de Estudos Qualitativos em Saúde e Enfermagem (Nequase) da Universidade Federal de Goiás (UFG) realizou um estudo num hospital psiquiátrico de Goiânia. Segundo a pesquisadora Sheila Pedrosa, o primeiro passo para entender essas pessoas é ampliar a própria percepção sobre o assunto e escutar o que eles têm a dizer. “Eu percebi que eles eram indivíduos comuns em busca de ajuda. Classificá-los somente como ‘usuários’ começou a me incomodar, pois isso desconsidera o fato de serem também pais, mães, trabalhadores e favorece que sejam rotulados por uma condição potencialmente transitória”.

Dos participantes, 34 são homens e cinco são mulheres, com média de 32 anos. Quase metade relatou ter filhos e condição socioeconômica desfavorável, por não ter moradia ou emprego, por exemplo. Para os sujeitos da pesquisa, mesmo o crack não sendo a primeira escolha de uso, ela é a que mais impacta na vida de cada um deles, pois o uso é permeado por sofrimento e perdas em diversas áreas da vida. “Eu já fiquei fumando na rua porque não tinha dinheiro para pagar o hotel entendeu? Eu tinha que fazer a opção: ou eu comprava mais droga, ou eu pagava o hotel... eu falei: eu vou comprar mais droga!”, conta um dependente em tratamento na época.

“Meu pai morreu, eu com sete anos, minha mãe criou seis filhos sozinha, então, até por isso, às vezes eu fui tendo essa curiosidade de usar esses certos tipos de droga” Dependente em tratamento

No geral, a curiosidade na juventude, a busca de um alívio para as decepções da vida e os conflitos familiares foram relatados como fatores para o consumo da droga. Contexto de violência e falta de apoio emocional e/ou financeiro na infância e adolescência também podem, muito provavelmente, tê-los deixado vulneráveis ao consumo, ao uso nocivo e à dependência, explica Sheila. Além disso, outros ainda relataram o desejo de matar o pai por presenciarem graves agressões contra suas mães: “Meu pai e minha mãe eram alcoólatras [...] meu pai já esfaqueou a minha mãe, já colocou a mão da minha mãe no fogo umas três, quatro vezes, meu pai já abandonou a gente [...]”.

Vulnerabilidade Social

“Inicialmente nos salta aos olhos o que a gente quer enxergar, é o nosso olho em cima das informações. É preciso retirar nossas lentes culturais  para  entender o que as pessoas estão nos mostrando, mas cada um tem seu tempo pra conseguir isso.” Patrícia de Oliveira

Outro estudo, também realizado pelo Nequase, buscou compreender a vulnerabilidade social vivida por vinte adolescentes de 13 a 18 anos, que são atendidos em um Centro de Referência em Assistência Social (Cras) de Aparecida de Goiânia. Segundo a pesquisadora Patrícia de Oliveira, os adolescentes estavam ali por vínculo, como uma forma de se integrar na sociedade.

“Mas a vida deles é marcada pela negligência de instrumentos sociais básicos não ofertados, como a saúde, a educação, o lazer e segurança pública. Muitas vezes eles são vistos de uma forma preconceituosa, como possíveis agressores, delinquentes, e isso começa a gerar mais violência.

Crítica conservadora

É muito difícil entender a realidade do outro, principalmente quando os sujeitos vivem em um contexto social diferente. Uma pessoa que mora no centro de uma capital, não conseguirá entender a realidade de uma periferia, por exemplo, se não conferir aquela realidade de perto, deixando seus preconceitos de lado. Patrícia de Oliveira relata: “eu demorei muito para compreender o significado que a maconha tem para aqueles adolescentes. Para eles, a erva não é entendida como uma substância ilícita, porque ela faz parte daquele convívio social deles, de onde eles vivem. Se torna algo natural, isolado do critério de legalidade”.

Você precisa disso?

"É possível as pessoas terem uma relação positiva com as drogas, a gente esquece que é uma realidade, se as drogas não dessem prazer, as pessoas não usariam”. André Contrucci

O álcool e o tabaco são substâncias que, apesar de terem o consumo legalizado, provocam prejuízos à saúde. Outras drogas também possuem capacidade de produzir sensações tão potenciais de prazer quanto as drogas legalizadas, ou mais que elas, contudo, a todo o momento pauta-se combatê-las. Mas será que esse é o real problema? A professora da UFG, Renata Mazaro, acredita que não. “A droga não é nada sem a pessoa! A gente tem de mostrar que o problema é o comportamento em cima do uso. É por isso que precisamos educar. Se você vai fazer o uso, é preciso pensar como consumir, sem trazer os demais danos para a sua vida!”

Segundo o psiquiatra Dartiu Xavier, uma pessoa é considerada dependente quando ela não tem controle sobre o uso da substância. E essa é a diferença entre o usuário ocasional e o dependente. A maioria dos usuários não se torna dependente, mas alguns sim. Para o coordenador do projeto “É de lei”, associação que trabalha pela redução de danos sociais e à saúde associados ao uso de drogas no Brasil, André Contrucci, é importante que as pessoas saibam dos riscos, mas de maneira honesta. “Não adianta mentir achando que vai proteger. A gente protege sendo sincero e abrindo diálogos. Se você usar maconha, você terá esses riscos, e se você fizer uso de álcool, também poderá ter consequências graves. Essas reflexões devem existir, e não campanhas sensacionalistas em torno das drogas”, afirma.

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Fonte : Ascom UFG

Categorias : Sociedade Edição 92

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