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A crise econômica e a pesquisa na Universidade

Professor José Alexandre Felizola Diniz Filho fala sobre os cortes e como eles atingem a academia

José aLE

José Alexandre Felizola Diniz Filho*

Foto: Carlos Siqueira

Os cortes que atingiram as agências de fomento, institutos de pesquisa e instituições de ensino superior (IES), em todas as esferas administrativas, têm sido objeto de muitas reportagens em toda a mídia. São muitos os relatos sobre problemas para o desenvolvimento de novos medicamentos, novas tecnologias agrícolas ou novos processos industriais. Sem dúvida, tudo isso é importante e chama a atenção da opinião pública, indo de encontro à percepção da sociedade sobre o papel do cientista. Infelizmente, há um aspecto mais nefasto dessa crise, menos conhecido e menos divulgado, que é o colapso da própria ciência no contexto acadêmico.

A posição de destaque do Brasil em Ciência e Tecnologia alcançada nos 20 últimos anos se deve, em grande parte, à ciência básica. De fato, esse destaque aparece no número de publicações científicas, mas quando são considerados outros indicadores (como citações, impacto ou geração de patentes, por exemplo), a posição do Brasil nos rankings internacionais diminui bastante. Isso é esperado em um país onde a ciência é feita predominantemente em áreas básicas, com poucos recursos e muito ligada à formação de recursos humanos, em um ambiente acadêmico.

Os cortes no orçamento das IES provocam um impacto indireto na ciência, pois é difícil fazer pesquisa se essas instituições não possuem condições mínimas de manter sua infraestrutura (e isso, obviamente, se torna mais grave se os cortes atingem pagamento de salários, como ocorreu na UERJ). No contexto acadêmico, os recursos para pesquisa, em geral, são repassados aos docentes e seus alunos diretamente pelo CNPq e FAPs, ou para os cursos de pós-graduação “stricto sensu” pela Capes. Com a falência desse sistema, gradualmente os docentes das IES que estão envolvidos em pesquisa podem se desestimular ou não ter condições mínimas de trabalhar. Isso cria um efeito em cascata de proporções desconhecidas, já que é a pesquisa nas IES que mantém os docentes na fronteira do conhecimento em suas áreas e lhes assegura um pensamento crítico e independente. Além da aquisição e manutenção de equipamentos nas áreas mais aplicadas e tecnológicas, é preciso ter recursos para  manter muitas atividades de pesquisa em  todas  as  áreas  do conhecimento.

Um ponto crucial e geral é a manutenção de bolsas para os alunos, desde a iniciação científica até o pós-doutorado.  Como as oportunidades de emprego decresceram consideravelmente, é preciso manter um programa de pós-doutorado bem dimensionado para que os jovens doutores permaneçam atuando em ensino e pesquisa, não perdendo todo o investimento feito ao longo de sua formação profissional. Ao mesmo tempo, esses doutores jamais seriam formados se, desde a sua graduação, não houvesse um forte estímulo à  pesquisa. Muito do crescimento da pesquisa no Brasil se deve ao sucesso dos programas de iniciação científica, como o Pibic do CNPq. Fechando o ciclo, se os docentes não forem devidamente valorizados como pesquisadores, quem irá orientar todos esses alunos?

Em resumo, é  importante  estar  atento a  esses impactos mais  difusos da crise econômica e política na Ciência, já que não há uma plena compreensão pela sociedade (e às vezes nem mesmo pela própria comunidade universitária) sobre o funcionamento do sistema acadêmico. É preciso ter clareza de que, em  última instância, é o componente de pesquisa e produção de conhecimento nas IES que cria as condições para a transformação social, a partir da educação e da inovação tecnológica, com base em uma visão científica do mundo.

*José Alexandre Felizola Diniz Filho é professor do Departamento de Ecologia do ICB, UFG, pesquisador nível 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências. É atualmente coordenador do projeto INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade, sediado na UFG.

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Artigo Edição 92

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