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Canguru

Cuidado que une e acalma

Pesquisa comprova os benefícios de se carregar o bebê no colo

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Texto: Carolina Melo

Fotos: Carlos Siqueira

O aconchego do colo, o cheiro  da mãe, o ritmo do coração no compasso do contato pele a pele. Cada vez mais mulheres e suas redes de apoio vêm se dedicando a construir uma nova relação com a maternidade, mais acolhedora ao tempo de adaptação do bebê ao novo mundo sensorial. Como aliada, a bolsa canguru vem auxiliando as mães, especialmente nos três primeiros meses de vida do recém-nascido, a recriar um ambiente mais próximo ao que tinha quando ainda estava no útero, promovendo uma maior sensação de bem-estar e segurança.

Os benefícios da bolsa canguru para bebês a termo – acima de 37 semanas de idade gestacional e no peso ideal foram comprovados por pesquisa inédita na América Latina, realizada pela Faculdade de Enfermagem (FE) da Universidade Federal de Goiás (UFG). O fortalecimento do contato e do vínculo mãe-bebê, bebês mais calmos, que choram menos e dormem melhor e a melhora das cólicas foram algumas das percepções relatadas pelas mulheres que utilizaram a bolsa canguru. O estudo também encontrou relação entre a bolsa canguru e o aleitamento materno exclusivo.

De acordo com a pesquisa, a sensação de tranquilidade gerada na criança também favorece o bem- estar da mulher. A proximidade corporal e o contato pele a pele propicia à mãe conhecer melhor o seu bebê e as necessidades dele e permite momentos compartilhados de descanso durante o dia e à noite. “Como os bebês dormiam melhor no canguru, as mães aproveitavam para descansar também”, conta a  pesquisadora Romilda Rayane Godoi. Com o recém-nascido ali mesmo, no colo, grudadinho no peito da mãe, a amamentação também era facilitada. Sem tirá-lo do canguru, a mãe oferecia o peito e o bebê já ficava na posição adequada para arrotar.

Outra observação foi o maior grau de autonomia conquistada pela mãe em momentos de atividades e locomoção dentro e fora de casa. “Teve uma que relatou o auxílio  da  bolsa canguru no transporte coletivo, quando não havia cadeiras para sentar e ninguém sedia o espaço”, afirma Romilda.

A dona de casa Tatiane Ribeiro dos Reis, 35 anos, está entre as mães acompanhadas pela pesquisa que mais utilizaram o pano para carregar o bebê. Ela conta que utilizava a bolsa canguru com sua filha Bruna, hoje com um ano e nove meses, o tempo todo, todos os dias. “Tive uma ajuda extra com os cuidados com a bebê.  Sempre que colocava ela no canguru, ela se acalmava. Já na primeira vez que usei, ela se acostumou e dormiu. Amamentava com ela dentro do canguru, e quando precisava estender as roupas em casa, fazia com ela no colo, amarradinha em mim”, relembra.

Nova forma de maternar

A política de humanização das unidades neonatais se direciona para a garantia do fortalecimento do contato mamãe-bebê nas primeiras horas de vida dos bebês saudáveis. “Para recém-nascidos a termo, os cuidados e pesquisas focam no momento do nascimento. Nasceu, põe no peito, estimula a amamentação. Então já temos pesquisas na área sobre os benefícios. Mas e depois?”, questiona a professora da Faculdade de Enfermagem da UFG e orientadora da pesquisa, Thaíla Corrêa Castral.

Culturalmente, assim que nasce, o bebê tem de ser uma espécie de “mini-adulto”, avalia a professora. “Ele tem de ter horário para mamar, para dormir e deve ser colocado no berço. Não se pensa muito em atender às suas necessidades”. Segundo ela, é durante os seis meses de vida que a criança faz “o desmame do corpo da mãe”, numa espécie de gestação extrauterina. “É o período necessário para o bebê tornar-se mais ‘independente’, quando ele estará com a visão formada, o aleitamento não será exclusivo e começará a sentar sozinho. Até os seis meses é um período que o bebê não deveria ser separado do colo da mãe. E a bolsa canguru vem facilitar esse momento”, afirma. De acordo com Thaíla, o uso da bolsa canguru tende a ser mais intenso nos primeiros três meses.

Para a pesquisadora Romilda Godoi, uma grande relevância do estudo foi acompanhar as mudanças na forma de enxergar a maternidade entre as mulheres que usaram o canguru. “Tivemos o prazer de acompanhar mães se sentindo mais fortes no contato com os seus filhos”, relata. Na avaliação da professora Thaíla Corrêa, a pesquisa mostra uma nova proposta de cuidados com os recém-nascidos, diferente do tradicional. “Em vez dos carrinhos, do berço, constata-se que carregar o bebê no colo é bom e isso foi mostrado tanto pelo levantamento de dados qualitativos quanto pelo quantitativo”.

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Bebê no pano

A pesquisa acompanhou 98 mães desde a maternidade até o primeiro ou o segundo mês dos bebês. Foi na maternidade que elas receberam e foram ensinadas a usar a bolsa canguru. Destas, 39,8% usaram três vezes ou mais por semana em domicílio, 49% utilizaram menos de três vezes por semana e 11% não utilizaram o canguru desde que saíram da maternidade. Na avaliação de Romilda Godoi, os dados refletem uma cultura que não está acostumada a carregar os bebês em panos e, em alguns casos, mostra-se resistente, por inúmeros fatores.

“Fizemos o acompanhamento inicial das mães entre o primeiro e o segundo mês, um momento intenso do pós-parto, em que as mães estão adaptando-se a nova rotina e acabam deixando a bolsa de lado. Muitas começaram a lembrar quando o bebê começou a sentir cólicas e, assim, recorreram ao canguru”, conta. Diferentes fatores interferiram na adaptação da mãe à bolsa canguru. “O receio de amarrar o bebê molinho no colo, a dificuldade de manejar a bolsa, e também as que não sentiram confiança quanto ao benefício que o canguru poderia gerar ao bebê”, afirma Romilda.

Helena Raquel Cardoso Silva, 31 anos, dona de casa, compõe o percentual das mães que menos utilizaram a bolsa canguru. Ela conta que quando amarrou a bebê no pano, ela ficou bem aconchegante. “Mas usei muito pouco. Achava difícil colocar a bolsa, isolar o bebê. Também porque minha filha era muito calma, dormia dia e noite. Até cinco meses nem parecia que tinha bebê em casa”, conta.

Das 98 mulheres, 88 ainda estavam amamentando e todas elas utilizaram o canguru pelo menos uma vez. “O contato pele a pele é muito importante para a amamentação, especialmente após o nascimento. Todas que utilizaram a bolsa pelo menos uma vez, que seja na maternidade, tiveram uma boa pontuação na escala de autoeficácia da amamentação”. A escala, formada pelo domínio técnico da amamentação (pega, revezamento das mamas, saciedade do bebê etc) e o domínio intrapessoal (que reflete as percepções, atitudes  e crenças quanto à sua amamentação), é utilizada para verificar a confiança das mães em amamentar.

Fonte : Ascom UFG

Categorias : pesquisa Edição 92

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