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Tese analisa o modo de vida de trabalhadores rurais no meio urbano

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 59 – JUNHO – 2013

Tese analisa o modo de vida de trabalhadores rurais no meio urbano

As mudanças nas relações sociais de trabalhadores da cidade de Goiânésia motivou a tese do programa de pós-graduação em sociologia. A segregação continua sendo forte elemento de discriminação

Texto: Luyza Milena | Fotos: Divulgação

A realidade social de trabalhadores rurais do município de Goianésia foi tema para a primeira tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação de Sociologia(PPGS) da Faculdade de Ciências Sociais. Quem defendeu foi o doutorando Glauber Xavier, professor do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e que defendeu sua tese em maio de 2013.


Os assalariados rurais urbanizados são os trabalhadores rurais da cidade de Goianésia que trabalham com o corte de cana-de-açúcar, nos canaviais da região. O Professor explica o porque desse conceito: “é para dar ênfase na questão cultural, ou seja, são trabalhadores rurais, mas integrantes de uma dinâmica de vida urbana, a qual enceta novas representações, formas de agir e pensar destes sujeitos sociais”. A pesquisa buscou saber como a cultura desses trabalhadores se modificou quando entrou em contato com o modo de vida urbano.

trabalhadores

 

O professor foi, literalmente, à campo para entender a realidade dos trabalhadores. Ele conta que a recepção por parte dos trabalhadores foi interessante “eles são bastante hospitaleiros, possuem uma relação diferente com a casa portanto é preciso atenção à cultura deles”, explica. O professor Glauber ainda acrescenta que um dos objetivos da tese foi constituir um registro a cerca da história desses trabalhadores, já que, segundo ele, os registros sobre a cidade priorizam a visão do patronato local.


Para pesquisar a memória da cidade, o professor se baseou em dois livros sobre Goianésia, que tratam do povoamento do município. Na pesquisa sobre o modo de vida dos trabalhadores, ele coletou dados do IBGE, com as quais pôde obter informações como o perfil de consumo e o rendimento dos trabalhadores, e ainda fez visitas às suas casas e acompanhou suas rotinas de trabalho e de vida. O professor conta que ao investigar as relações de trabalho encontrou certa dificuldade devido o impedimento de acesso aos canaviais por parte das usinas em que eles trabalhavam “isto aponta para a realidade social e histórica daquele local. Estes trabalhadores foram privados do acesso à terra e também da manifestação do seu modo de vida e de suas subjetividades” analisa.
Nas visitas, o professor registrou imagens de objetos que refletem a presença de uma cultura de consumo “o trabalho tem algumas imagens de aparelhos como TV, refrigerador, laptop, esteira ergométrica, micro-ondas, várias casas possuem também antena parabólica, e isto contrasta com a situação de suas moradias. É, de fato, uma modernidade anômala, isto é, há o acesso à toda sorte de mercadorias sem, contudo, condições efetivas que garantam a cidadania destes trabalhadores”.


Não foi por acaso que o professor escolheu a cidade de Goianésia para fazer sua pesquisa. Nascido e criado lá, ele observava a relação dos trabalhadores e da cidade desde jovem, “eu tive esta preocupação por seu o meu lugar”. Ele acredita que é preciso primeiro ter uma compreensão próxima para poder entender uma ordem distante. “A minha história se liga de alguma forma com a dessas pessoas, porque eu morei em um bairro habitado por vários trabalhadores do corte de cana, e recebi as mesmas informações acerca da história oficial local”.


Ele conta que seu principal questionamento, quando jovem, vinha principalmente da ordem concreta. Por exemplo, se questionava sobre as diferenças entre as moradias dos usineiros e dos cortadores de cana-de-açúcar, que eram visivelmente desiguais, além de outros fatores, como o estigma social vivenciado pelos trabalhadores no município. O professor conta que após as leituras feitas na universidade ele pôde abstrair das questões concretas e pode compreender que aquelas diferenças resultavam de um conflito de classes que, por seu turno, se estabelece tanto materialmente quanto simbolicamente, sendo esta última um aspecto crucial na reprodução das relações sociais.

Cultura urbana

Segundo o Censo de 2010, Goianésia possui 54.549 habitantes e sua economia é baseada principalmente na produção sucroalcooleira, devido aos grandes canaviais lá instalados. Goianésia é também a cidade mais importante da região do Vale do São Patrício, forte polo econômico que reúne 23 municípios, que fica na região central do estado de Goiás.
O estudo utilizou saberes teóricos de diversas áreas além da sociologia, foram necessárias abordagens econômicas, antropológicas para apreender questões étnico-raciais, e históricas entender para a memória do local. Para compreender a cultura, ele conta que utilizou a sociologia neomarxista “ela passa a conferir relevância aos aspectos culturais, porque não basta compreender essa realidade a partir dos elementos materiais. No estágio atual de avanço do capitalismo é fundamental compreender também a reprodução das relações, portanto, o modo de vida”, explica.


Para ele, o modo de vida passa a ocupar o centro de preocupações da sociedade “não que o trabalho não seja relevante, ele é importantíssimo no fenômeno humano mas é o modo de vida que vai engendrar uma ação por parte do trabalhador, é o consumo: aquilo que o salário garante materialmente”. Mas não quer dizer que as mudanças acontecem somente em relação ao consumo, disse o professor ao observar, por exemplo, a organização da família, a mudança no cotidiano dos bairros, que modificaram de alguma forma em curto espaço de tempo.


As diferenças sociais são visíveis, segundo o professor, até mesmo pelo local onde os trabalhadores vivem, que os segrega do restante da cidade. “Goianésia foi planejada de uma maneira e, à medida que os canaviais foram expandindo, novos bairros surgiram e eles passaram a ocupar um espaço fora dessa concepção primeira da cidade. Esse espaço fica fora da planta original fisicamente e também socialmente”, explica. Segundo o professor, os moradores ficam à margem da sociedade local, chegando a ser acusados de práticas criminosas por causa da localização de suas moradias.


Em 2012 o professor publicou o livro “O boia-fria e o cotidiano na cidade” na coleção Expressão Acadêmica, da Editora da UFG, resultado da sua dissertação de mestrado. No doutorado ele continuou pesquisando sobre os mesmos sujeitos sociais, trabalhadores que lidam com o corte de cana-de-açúcar.

O programa

O Programa de Pós-graduação em Sociologia da FCS foi criado em 1999 com o mestrado em Sociologia. Em 2010, a primeira turma de doutorandos começou as atividades e agora, em 2013, as primeiras teses estão sendo defendidas. O professor Revalino Freitas, que orientou a dissertação e a tese do professor Glauber Xavier, informa que está prevista a abertura de novas inscrições para o doutorado ainda para este ano.

 

Categorias : trabalho rual meio urbano sociologia

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