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ENTREVISTA: Avanços e entraves no combate à tuberculose no mundo

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Publicação da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Goiás 
ANO VII – Nº 65 – MARÇO – 2014

ENTREVISTA: Avanços e entraves no combate à tuberculose no mundo

Texto: Michele Martins | Tradução: Ana Paula Kipnis, professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP/UFG) | Foto: Júlia Mariano

 

Professor Ian Michael Orme

Um terço da população mundial pode estar infectado pela tuberculose, doença contagiosa com transmissão pelas vias aéreas. O principal desafio da ciência é vencer a resistência multidroga (MDR) que algumas formas da doença têm apresentado.

Em janeiro de 2014, a Rede Goiana de Pesquisa em Tuberculose e a Rede do Programa Pró-Centro-Oeste de Pesquisa do CNPq realizaram no Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) o 2° Workshop de Imunopatologia da Tuberculose. O principal convidado do evento foi o professor da Colorado State University, Ian Michael Orme. Reconhecido internacionalmente por desenvolver pesquisas referentes à tuberculose com mais de 300 publicações científicas de referência, o pesquisador também foi o responsável pelo estabelecimento de um laboratório de nível de biossegurança 3 para testar vacinas para tuberculose em modelo animal, produzidas por meio de projetos financiados pelo NIH (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos), e novas drogas contra a doença. Ele falou sobre o assunto para o Jornal UFG.

Como podemos caracterizar a evolução da tuberculose?

A tuberculose é um problema global. Em algumas áreas do mundo, como na América do Norte, a incidência é baixa, mas em outras ainda prevalece com índices muito altos, como na África do Sul. Há 20 anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) listou os 20 países em que o problema era grave, sendo o Brasil um deles. Porém, o Brasil realizou bem o programa de controle e conseguiu melhorar os índices da doença. Já a África do Sul tem outros problemas alarmantes, como a AIDS, que afeta o sistema imunológico, que deixa o indivíduo mais susceptível a desenvolver a tuberculose, contribuindo para que a doença continue muito presente naquele lugar. Neste momento, não estamos ganhando a guerra contra a tuberculose, mas estamos tendo progresso com o desenvolvimento de novas e melhores combinações de drogas para combater as formas resistentes da doença.

Qual o foco das atuais pesquisas sobre tuberculose?

Estamos tentando desenvolver novas vacinas, mas não chegamos aos estágios de testes clínicos. Há muito esforço por parte dos pesquisadores, mas as pesquisas são muito caras. É preciso ter instalações sofisticadas que atendam aos critérios de biossegurança em nível 3. No Estado norte-americano do Colorado, temos um prédio bastante sofisticado que atende a essas exigências. São instalações que custam em torno de 10 a 15 milhões de dólares e precisam de pesquisadores e técnicos capacitados para que não haja contaminação com tuberculose. No Brasil, existem dois ou três laboratórios pesquisando a doença, já nos Estados Unidos entre 10 e 15 laboratórios.

A empresa Johnson e Johnson tem uma subsidiária, a Tibtech, que começou a estudar muitas drogas específicas para bloquear nas bactérias um processo enzimático celular de obtenção de energia. A ideia era descobrir uma droga para combater as bactérias Staphylococcus aureus, resistentes à droga meticilina (MRSA). Ao testar essas drogas contra a S. aureus e, em seguida, realizar uma seleção, os pesquisadores incluíram uma outra bactéria nos experimentos, a Mycobacterium smegmatis. Dessa forma, foi possível encontrar uma droga, à época, denominada de R207910, que não eliminava a Staphyloccus, mas a M. smegmatis. Os pesquisadores pensaram: será que esta droga destrói a M. tuberculosis, a bactéria causadora da tuberculose? A empresa nos procurou para testar a droga, em animais, que se mostrou muito eficiente e capaz de reduzir o tempo de tratamento da doença de seis meses para 15 dias. Ensaios clínicos com pacientes humanos foram realizados na África e mostraram que a droga é muito eficiente. A equivalente americana para a Anvisa, a U.S. Food and Drug Administration (FDA), aprovou essa droga em seguida, que foi a primeira aprovada em 40 anos. Em breve, a droga Bedaquilina deverá chegar aos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil. Falta aumentar a produção dessa droga, mas imagino que em seis a 12 meses estará disponível. Outra coisa importante é que ela é bastante específica, pois inibe a produção de energia da bactéria sem interferir na produção de energia das células do hospedeiro. Várias outras drogas que possuem outros mecanismos de ação estão sendo testadas em humanos.

As mutações sofridas pela bactéria são a maior dificuldade para o desenvolvimento de novas drogas?

A bactéria tem sofrido mutações há milhares de anos, tornando-se resistente às drogas cada vez mais rápido. A pressão evolutiva está levando a isso, pois a bactéria evoluiu para poder infectar os indivíduos mais saudáveis, um processo chamado high fitness. Existem algumas famílias de bactérias, como a Beijing, que consideramos mais virulentas. Essa virulência (capacidade de um agente infeccioso produzir casos graves de uma doença) tem aumentado, provavelmente, porque os indivíduos melhoraram seus sistemas imunes em virtude de melhores condições de vida. Isso as tornaram mais fortes para combater as infecções. É necessário usar uma combinação de drogas no tratamento da doença para evitar essas resistências. Na Rússia, por exemplo, foi usado a monoterapia, terapia com apenas uma droga, e isso causou o desenvolvimento da resistência em uma grande quantidade de pessoas.

Quais as novidades em relação ao desenvolvimento de uma vacina para a tuberculose?

O processo de desenvolver uma vacina não é difícil, já desenvolvemos os modelos animais de infecção e temos instalações para isso. O difícil é desenvolver uma nova vacina BCG que proteja mais que a atual. A vacina BCG tradicional age de forma profilática (preventiva) impedindo que a criança vacinada adquira e desenvolva a tuberculose. Recentemente, estão desenvolvendo uma vacina terapêutica (de tratamento), ou seja, algo que possa ser administrado após a aquisição de tuberculose. Serviria, por exemplo, para uma pessoa que entrou em um avião e se infectou com uma tuberculose MDR e quer uma vacina para impedir a piora da infecção. A dificuldade para desenvolver a vacina terapêutica é bem maior, mas temos alguns candidatos para testes. Isso não vai curá-los, mas diminuirá a carga bacteriana e permitirá que o próprio hospedeiro controle a infecção.

Categorias : tuberculose vacinação pesquisas bactéria

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