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Cesio

Goiânia, 30 anos depois... e o Césio-137?

Convidados discutem consequências do acidente

Cesio

Fotos: arquivo digital e Carlos Siqueira

Ascom, TV UFG e Rádio Universitária

Em 2017, o acidente com a cápsula radioativa de Césio-137, considerado o maior acidente radiológico do mundo, completa 30 anos. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro de Goiânia. Uma tragédia que impactou a cidade de forma significativa e fez centenas de vítimas.

Para discutir as consequências desse acidente na atualidade, convidamos o coordenador do Fórum Permanente sobre o Césio, Julio Nascimento, o diretor do Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), André Luiz de Souza, e Natercio Ivo da Paixão, vítima do acidente.

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Como as vítimas têm sido vistas e atendidas?

Natercio Ivo – Durante esses 30 anos, nós, vítimas do Césio-137, temos percebido um esquecimento por parte da comunidade e do governo, onde nos sentimos prejudicados pelo trabalho de tamanha relevância que prestamos, com muita ignorância nossa de termos aceito efetuar aquele trabalho na oportunidade do acidente. Acho de suma importância a imprensa hoje voltar a esse assunto, por conta da data comemorativa, e queremos falar um pouco mais do acontecido em 1987.

André Luiz – O CARA sucedeu a extinta Fundação Leide das Neves e a Superintendência Leide das Neves. Nós temos 28 profissionais de saúde, uma equipe multidisciplinar, com odontólogos, psicólogos, assistentes sociais, mais de sete especialidades médicas, profissionais que o Estado designa para atender exclusivamente a população radioacidentada.  Com um público atual de 1.134 pacientes radioacidentados, eu confesso que temos um atendimento excepcional. Quando a gente busca o serviço público, pensamos em filas longas e demora de atendimento, o que não acontece com aqueles que demandam a nossa unidade. Se a gente faz sempre essa comparação, diluindo esses mil pacientes que devem estar lá pelo menos uma vez ao ano, teremos, considerando os dias úteis do ano, cinco pacientes por dia. Então, temos mais profissionais que a própria demanda que os pacientes nos fazem lá no dia a dia. A unidade foi criada para atender a um protocolo americano, aprovado pela associação americana em 1922 e, respaldado na época pela Agência Internacional de Energia Atômica, com sede na Suíça. O que fazemos hoje é justamente seguir esse protocolo e nós vamos manter a unidade, garantindo esse atendimento aos grupos 1 e 2, até a terceira  geração.

Julio Nascimento – O Fórum é, antes de tudo, um lugar de debate, reflexão social e representa uma posição política em relação a isso. Os relatos que temos das vítimas de todos os grupos contrariam um pouco essa versão de estarem sendo atendidos a contento. Se considerarmos a qualidade de vida dessas pessoas, dos pontos de vista físico e psicológico, é muito fácil perceber que há uma in- satisfação. Eu não sei o que é que pode estar havendo de errado, não sei se esse protocolo ao que o André se refere pode não estar adequado, mas o fato é que, concretamente, o relato das vítimas em nossas reuniões e debates contradizem muito uma apreciação positiva sobre esse atendimento.

Natercio Ivo – O representante do CARA falou do atendimento ao grupo 1 e ao grupo 2. Eu estou hoje aqui representando o grupo 3, que me parece, então, que não é nem reconhecido pelo CARA.

André Luiz – Muito pelo contrário. Nós temos o número exato do grupo 3, que se refere aos trabalhadores bombeiros e militares, ao Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e aos próprios colegas da Secretaria de Estado da Saúde. Esse é o maior grupo que nós temos hoje: 950 pessoas. A eles é concedido o tratamento, e aí talvez as associações tenham de fazer o trabalho político no sentido de buscar equidade. O que não é prestado aos pacientes do grupo 3 talvez seja a disponibilidade de veículo para transporte, mas a própria lei que cria o transporte diz que ele é exclusivo para pacientes em estado mais grave, o que não chega a ser uma afronta, porque temos veículos de passeio que se prestam apenas a atender aquele paciente com demanda de exames e consultas, além do período de recadastramento que ocorre sempre no mês de aniversário.

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Nos primeiros anos após o acidente havia receio, medo e repulsa com os goianos, mas 30 anos depois, aparentemente, há um esquecimento do que ocorreu e até desinformação por parte da população mais jovem. O que esse esquecimento pode ocasionar?

Julio Nascimento – Não é uma ação meramente do tempo. Há, de fato, uma busca de, propositadamente, zerar essa memória. Vejamos que, muito embora pareça que a população esqueceu, no imaginário ainda há um receio e um medo muito grande quando falamos disso, exatamente porque o pecado original dessa questão toda foi a desinformação que permanece, em parte por desconhecimento, o que foi o caso. Júlio Rozental disse no início “não sabemos e ninguém no mundo sabe os efeitos do Césio”. Então, imagina, toda aquela arruaça que tivemos em função de uma substância cujos efeitos não conhecíamos causou, sim, muito pânico e muito medo real. Mas, além disso, há o medo imaginário que fica porque não foi informado às pessoas sobre o que estava acontecendo. Foram tomadas atitudes e condutas e a população ficou no meio desse fogo cruzado. Até hoje nós padecemos disso. A função do fórum é exatamente essa: queremos retomar essa memória histórica, contada não pelo discurso oficial, mas pela voz das vítimas, de quem realmente se envolve naquilo ali, e na voz de uma ciência. Nós temos muitos estudiosos e muitos documentos e pretendemos juntar isso. É importante que a sociedade junte seus saberes e conhecimentos para retomar essa memória e, evidentemente, passar para as próximas gerações uma história tranquila, limpa, com verdade real sobre o que aconteceu, com responsabilidades que devem ser assumidas pelas pessoas. Mas infelizmente há uma tentativa, sim, de solapar essa memória. Não creio que hoje o termo CARA devesse ser utilizado. Por que é que foi retirado o nome de Leide? Ela é o ícone dessa questão. Então nós vemos muito claramente, e digo como porta-voz de uma entidade que se formou, que há uma tentativa de jogar assunto para debaixo do tapete, e isso é muito perigoso, porque as vítimas acabam sofrendo e o estado cada vez mais vai se retirando de suas responsabilidades, na medida em que o holofote sai desse fato. Então, queremos retomar isso com a intenção de restaurar essa cidadania e reeditar essa história a limpo.

Natercio Ivo – Para nós, que vivemos e participamos da retirada dos rejeitos e vivemos na época da recusa que Goiás teve diante de outros estados, é difícil. Ainda hoje me lembro da indiferença que vem ocorrendo ano a ano, apesar de nós termos vivido nos primeiros quinze anos numa estranheza e total abandono. Mas veio o Governo atual e criou a Lei n° 14.226 para nos proteger porque, na realidade, quem retirou todos os rejeitos de todas as áreas foi o pessoal do Crisa e seus equipamentos. Nós vivemos em recusas, vivemos participando de realidades e sendo rejeitados. Isso não pode jamais ser esquecido, principalmente entre os jovens, que não viveram essa época. O acidente não pode cair no esquecimento porque nós vivemos situações constrangedoras de chegar em determinado departamento e sermos deixados, muitas vezes, falando sozinhos, porque a gente andava com aquele macacão. Isso aconteceu comigo.

André Luiz – Temos de agradecer aos 30 anos exatamente por isso. A secretaria tem pecado e talvez a instituição Estado também, no sentido de que a comunicação não tem sido adequada para informar o que ocorre em relação ao acompanhamento de pacientes radioacidentados. Nós temos mais de 50 funcionários, incluindo 28 profissionais da área da saúde, exclusivamente trabalhando para dar esse atendimento. A questão de definir a unidade como Leide das Neves ou não, está esquecido pelo Julio e talvez, como ele não é paciente nosso, a ele não foi dada essa oportunidade de conhecimento. Existe um centro de pesquisa denominado Centro de Excelência em Ensino, Pesquisa e Projetos, que funciona dentro de umas das principais superintendências da secretaria da saúde, exatamente para desenvolver esses trabalhos. Dizem que não temos pesquisa e estudos que demonstrem esse acompanhamento ao radioacidentado, mas nós temos mais de 40 estudos feitos por profissionais aqui da Universidade Federal de Goiás, da Unicamp, da Fiocruz, todas pesquisas que vocês podem encontrar na internet. A verdade não é aquilo que estão dizendo, a verdade é que a nossa unidade é pública, aberta. As mídias nacional e internacional que estão nos demandando em razão dos 30 anos, estão levando essa verdadeira informação que, como eu disse, talvez até pecamos, por não divulgar essas ações. O nosso slogan nesses 30 anos é: relembrar para prevenir. E isso está sendo feito com competência pelos nossos profissionais.

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As áreas que foram contaminadas com o Césio ainda apresentam algum tipo de risco? Hoje ainda haveria a possibilidade de ocorrer um acidente como o que ocorreu em 1987?

André Luiz – Nenhuma. A gente fala isso com a garantia de laudos que a gente tem. As áreas que foram contaminadas na época foram todas limpas e descontaminadas. É feito um acompanhamento pela regional da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), estabelecida aqui no município de Abadia de Goiás, bem próximo à região metropolitana. Mediante esse acompanhamento, a gente afirma isso com a segurança de laudos técnicos extremamente confiáveis. O que ocorreu nos últimos anos, e aí devemos agradecer, é que as redes pública e particular de ensino têm incluído nos livros didáticos de ensino fundamental e médio, matérias que falam desse acompanhamento e a necessidade de manter essa fiscalização. O que ocorreu depois do acidente com o Césio é que criou-se uma legislação muito segura em relação a isso. O aparelho de radioterapia usado atualmente já não contém mais o Césio. Hoje usamos aparelhos novos que dependem de energia elétrica e, quando desligados da tomada, são aparelhos sem nenhum risco para o manuseio eventual, numa perda, que foi o que ocorreu em 1987. É importante adiantarmos também que o estado de Goiás, a partir de 2002, com a edição da Lei n° 14.226, concedeu praticamente 500 pensões a pacientes radioacidentados, incluindo o grupo 3. O Governo Federal concedeu até hoje 265 pensões. Atualmente, temos um público de 751 pensionistas, dos quais 113 radioacidentados recebem, cumulativamente, as duas pensões. Mas ainda há pacientes sem receber? Sim, talvez nós tenhamos 300 radioacidentados que ainda não preenchem os requisitos que a lei exige para ele ser reconhecido como tal.

Natercio Ivo – Eu discordo porque entre nós – servidores do Crisa, que compomos o grupo  3, que retirou os rejeitos – há muitos companheiros vindo a óbito praticamente desassistidos. A assistência do CARA para nós do grupo 3 é uma vez ao ano porque nós vamos lá. Não nos fornecem medicamentos e tem uma dentista que não nos atende, faz um orçamento e encaminha para um dentista do Ipasgo. Então nós precisamos realmente de uma assistência mais presente. Por outro lado, nessa questão dos pensionistas, nós recebemos a pensão estipulada pela Lei, o governo nos deu esse direito, mas estamos ainda recebendo o salário de 2014. Está ficando pendente um reajuste e nós não queremos entrar nessa briga com o Estado para reaver esse passado. Eu mesmo não entro na área jurídica, acho que fica na consciência do governo. Queremos que esse episódio constrangedor não caia no esquecimento.

Julio Nascimento – Há contradições de informação desde o início. A coisa não é unilateral. Eu vejo que o Estado cuida com descaso de coisas importantes. O nome Leide não é apenas um nome, é um ícone, é um marco de uma história, que jamais poderia ter sido retirado, denotando sim uma intenção de esquecimento. Eu não falei em momento algum das pesquisas que são feitas no CARA, eu disse que há pesquisadores com os quais nós deveremos contar, mas levando em conta que  essa ciência tem de ser humanizada, não pode ser uma ciência burocratizada que fica escondida lá. O grande paradoxo que se apresenta é que tanta pesquisa não está resultando na melhora da qualidade de vida das vítimas, numa sensação de segurança maior em relação a tanta ciência que se faz. A ciência deve realmente chegar a esse ponto de fornecer ao cidadão um bem-estar, uma segurança e a devolução de sua qualidade de vida. Tem de haver uma intersecção entre ciência e sua aplicação humana. O Fórum quer refletir exatamente sobre isso, sobre que tipo de ciência estamos fazendo e pra que é que ela está servindo. A ciência tem de estar a serviço dessas pessoas por inteiro, tratando de seres humanos, a ponto que eles se sintam realmente reintegrados à sociedade e não fiquem sendo discriminados ou se sentindo passageiros de segunda classe.

Confira programa completo da TV UFG sobre o assunto.

 

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Mesa Redonda Edição 90

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