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Feminismo negro

Protagonismo para as mulheres negras

Feminismo negro busca visibilidade para pautas específicas e combate não só o machismo, como também o racismo

Feminismo

Texto: Angélica Queiroz, com informações da TV UFG

Fotos: Adriana Silva e Carlos Siqueira

Machismo e racismo: dois comportamentos consolidados que se perpetuam no Brasil desde o período colonial, promovendo a inferiorização das mulheres negras em relação aos homens e também em relação às mulheres brancas. Vítimas desse duplo preconceito, as mulheres negras sentiram a necessidade de se organizar e protagonizar um movimento social que não apenas lute por igualdade de direitos para homens e mulheres, principal bandeira do feminismo hegemônico, mas também combata o racismo que se perpetua e violenta expressiva parcela da sociedade brasileira.

Além da dominação masculina

O movimento, conhecido como feminismo negro, surgiu porque, no movimento negro, as relações de gênero acabam funcionando como repressoras da autonomia feminina e, no movimento feminista, as discussões de recorte racial são, muitas vezes, preteridas, privilegiando as pautas que contemplam somente as mulheres brancas. “Existe um imaginário de sub-representação da mulher negra em relação à branca que é vista como ideal de feminino, de beleza. Então, a questão da mulher negra, além da dominação masculina, também tem essa relação de poder que vem da mulher branca”, explica a militante do movimento de mulheres negras, Márcia Carvalho. Nesse contexto, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras em relação às brancas, em diversos espaços, sobretudo no mercado de trabalho, são ainda maiores.

Para a antropóloga e professora do Núcleo Takinahaky e do Mestrado em Direitos Humanos da UFG, Luciana Dias, o feminismo negro teve origem na primeira reação da primeira mulher negra que foi vítima de violências decorrentes do machismo e do racismo. “O feminismo negro pode ser compreendido como uma reação de mulheres negras violentadas por essas ideologias”, afirma. Como movimento social, a professora Luciana de Oliveira Dias explica que o feminismo negro, no Brasil,  teve origem na década de 1980, mais precisamente em 1985,  durante o Encontro Latino-Americano de Feministas, em São Paulo, quando notou-se a ausência de mulheres negras participantes do feminismo naquele momento, o que fez emergir as questões periféricas repudiadas pelo status quo.

Discussão na UFG

Para Luciana Dias a transformação passa por uma educação antirracista e antimachista e pelo empoderamento das mulheres negras. Objetivando um espaço que promova essa educação no âmbito da UFG, o Coletivo Rosa Parks, desenvolve estudos sobre questões de raça, etnia, gênero e sexualidade. O nome da rede de pesquisadoras negras homenageia a costureira negra norte-americana que entrou para a história ao se recusar a ceder o assento em um ônibus a um homem branco, no Alabama, em 1955, quando a segregação racial nos Estados Unidos era amparada por leis que restringiam o acesso de negros ao transporte coletivo e locais públicos. “As pesquisadoras do Coletivo Rosa Parks ocuparam o coletivo e não vão dele descer,  porque é um direito que seus corpos ocupem o lugar de pesquisa, ensino e ativismo”, afirma a professora,  que coordena o Coletivo.

Além de desenvolver pesquisas sobre raça, etnia, gênero e sexualidade, o Coletivo Rosa Parks, que começou a se articular coletivamente em agosto de 2016 na UFG, é também local de ativismo e militância e promove atividades junto à comunidade acadêmica e em geral, para levar adiante as bandeiras da resistência e da superação. São promovidas palestras em escolas, oficinas de turbantes e eventos abertos à comunidade, para que as pessoas negras, especialmente, possam entender que esses espaços também são delas e ocupá-los. O Coletivo Rosa Parks representa também uma rede de apoio na qual as mulheres negras relatam suas vivências e encontram suporte para o combate diário ao racismo e ao machismo. “É um projeto guarda-chuva, que hoje tem mais de 30 pesquisadoras desenvolvendo pesquisas em diferentes temáticas e áreas de conhecimento, e que apresentam como tema central o feminismo negro”, explica Luciana Dias, que destaca ainda que não é vetada a participação de homens e pessoas brancas, mas a maior parte dos participantes são mulheres negras. “Quando a temática central é feminismo negro, não desperta a atenção de qualquer pesquisador ou pesquisadora”, justifica a pouca adesão de homens e mulheres brancas.

Além do Rosa Parks,  o Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Diferença - Pindoba, da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, atua, desde 2012, no sentido de complexificar a discussão sobre ações afirmativas e políticas de inclusão na Faculdade de Informação e Comunicação. “Pindoba é o nome atribuído às palmeirinhas jovens com característica bastante peculiar. Após o período de queimada realizado para o plantio da monocultura que deveria eliminá-la é exatamente a condição em que a pindoba desponta, esse ‘renascer das cinzas’ nos remete ao conceito de resiliência característica própria das mulheres negras que se reinventam a medida que as relações sociais insistem em agir com racismo e sexismo perversos”, explica a mestranda em comunicação Elisângela Gomes, que integra o núcleo.

De acordo com Elisângela Gomes a concepção do Pindoba está orientada pela perspectiva das narrativas, uma vez que prioriza o ato de contar histórias a partir de diferentes plataformas, com o uso das mais variadas tecnologias, dentro de uma escola de comunicação. “O Pindoba também desenvolve estudos e pesquisas buscando as interseccionalidades de gênero, classe, raça/etnia, sexualidades e geração, lançando mão da Comunicação enquanto técnica, teoria e metodologia”, completa. Outros grupos como o Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas (Neadi), o Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LEPQI) e o Laboratório de Estudos de Gênero, Étnico-Raciais e Espacialidades (Lagente) também abordam o feminismo negro.

Feminismo

Pindoba também discute feminismo negro e promove eventos que evidenciam a temática

Precisamos conhecer as pesquisadoras negras

Elisângela Gomes destaca que o racismo e o machismo estão muito presentes também na academia. “Sabemos que, no Brasil, o processo de escolarização da população negra foi durante muito tempo negado, fazendo com que os próprios movimentos tivessem que fazer a gestão da própria educação. Esse sintoma se reflete no baixo número de pesquisadores e pesquisadoras negras”, afirma, lembrando que as condições sociais e econômicas também não foram asseguradas pelo estado e a consequência disso está na dificuldade da maior parte dos jovens negros e negras que entram na universidade e precisam conciliar trabalho, cuidado da casa e da família e longas distâncias percorridas de transporte público para chegar ao câmpus com as exigências acadêmicas.

“Precisamos salientar que a atualização da matriz curricular dos cursos ainda está alicerçada em valores eurocêntricos causando um epistemicídio, ou seja, o aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual negra através do racismo da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana para a construção do conhecimento. Esse fator também é impeditivo inclusive, de desenvolver pesquisas relacionadas às temáticas étnico-raciais e não raros são os casos em que muitos jovens desistem do ensino”, detalha Elisângela. Para ela, falta orientar o olhar para essas referências, pois elas existem

A professora Luciana de Oliveira Dias realça que é urgente a necessidade de se conhecer os trabalhos desenvolvidos por pesquisadoras negras nas mais variadas áreas de conhecimento. Mas adverte que ainda gravita no campo da exceção a presença de mulheres negras pesquisadoras nas universidades brasileiras. “Necessário se faz que tenhamos sensibilidades e ações afirmativas para que as universidades brasileiras não sigam reproduzindo um conhecimento marcado por fazeres brancos e masculinos e nos quais as mulheres negras não escapam do campo objeto de pesquisa”, opina. A professora anseia por tempos em que a presença de mulheres negras nas universidades na condição de pesquisadoras seja uma regra e não uma exceção. “Ainda há muito o que avançar!”.






Fonte : Ascom UFG

Categorias : Sociedade edição 91

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