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Água

A fonte secou?

Estamos, de fato, diante de uma crise hídrica? Pesquisadores da UFG buscam respostas para o problema

Água

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Carlos Siqueira

Com a promessa de atender 100% da Região Metropolitana de Goiânia, foi inaugurada, no dia 19 de setembro, a Estação de Tratamento de Água (ETA) Mauro Borges. A unidade faz parte da terceira etapa do Sistema Produtor João Leite que, juntamente com o Sistema Meia Ponte, tem como meta abastecer 20 municípios até 2040. A ETA Mauro Borges iniciou seu funcionamento dez dias antes da solenidade oficial, em caráter emergencial, diante de um cenário de calamidade pública. O período de estiagem na Grande Goiânia durou mais de quatro meses, o Rio Meia Ponte registrou a menor vazão das últimas três décadas e o resultado foi falta d’água em mais de 50 bairros. A Vila Itatiaia, por exemplo, localizada ao lado do Câmpus Samambaia, na Região Norte da capital, ficou até três dias consecutivos sem uma gota nas torneiras.

A situação fez o governo estadual decretar medidas de emergência, limitando o uso do Meia Ponte até 12 de dezembro. Assim, de acordo com a Portaria n° 205/2017 emitida pela Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), estão suspensas emissões e renovações de outorgas; a captação para fins de irrigação fica limitada ao período noturno e até mesmo a empresa Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) terá de limitar seu volume de distribuição. Ou seja, o racionamento não está descartado. Muito embora a falta d'água não seja lá uma novidade – há dois anos a Agência Nacional de Águas (ANA) vem alertando quanto ao déficit dos mananciais do Cerrado como um todo –, o Jornal UFG buscou especialistas para compreender o problema: O que está acontecendo? Há solução? Medidas como as anunciadas são suficientes?

“Não é possível garantir água para todos se não repensarmos nosso modelo de ocupação urbana”, respondem de maneira taxativa os professores Karla Emmanuela Ribeiro Hora e Maurício Martines Sales, da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (EECA), que escreveram um texto sobre o assunto especialmente para esta Edição. Ambos participam das reuniões de elaboração do Plano de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Goiânia (PDI-RMG) e lidam com um diagnóstico preocupante. Segundo o que constataram no âmbito de um grupo de trabalho formado por UFG, Secima, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), conselhos de Engenharia e Agronomia (CREA) e Arquitetura e Urbanismo (CAU), entre outras entidades, menos de 25% da Grande Goiânia é composta por vegetação remanescente de Cerrado. Isso significa que há muitas áreas vulneráveis e, inclusive, as Áreas de Proteção Permanente situadas no entorno dos cursos d'água já possuem alto nível de degradação.

Enquanto isso, as cidades crescem, justamente, sobre os pontos de captação de água destinados ao abastecimento público. Já são quase 2,5 milhões de habitantes na Região Metropolitana e uma falta de planejamento contribui para um "desequilíbrio" entre o consumo humano e as ações de esgotamento sanitário. A poluição aumenta e o tratamento de rejeitos e resíduos não consegue acompanhar. Todos esses são fatores que, somados ao período de estiagem que é característico do bioma no qual estamos inseridos, promovem a chamada "crise hídrica".

Segundo os professores, nesse sentido, “é preciso ter em mente que alteramos drasticamente os ecossistemas que armazenam e fazem circular a água”. E eles explicam como: “As fontes de água que utilizamos encontram-se na superfície ou abaixo dela. Quando desmatamos ou impermeabilizamos o solo, comprometemos a drenagem natural e, por vezes, aceleramos o escoamento superficial, podendo provocar assoreamento dos cursos d’água, erosão e redução do volume d’água”. Para Karla Emmanuela e Maurício, as medidas tomadas para superar a “crise hídrica” e evitar uma escassez de água na Grande Goiânia deveriam passar por uma ação conjunta entre municípios, governo estadual, setor produtivo e população. Mais do que isso, seria preciso repensar a expansão da cidade, sobretudo, no que diz respeito aos interesses imobiliários. “Não há outro caminho que não seja a proteção ambiental dos mananciais de abastecimento de água atuais e futuros”, completam.

Água para quem?

Muitos são os usos da água na atualidade: geração de energia, agropecuária, transporte hidroviário, abastecimento público, pesca, turismo, lazer etc. No Brasil, o mais polêmico deles tem sido a irrigação. Conforme dados da Agência Nacional de Águas (ANA), a modalidade consome 72% da água captada no país – e nem sempre o destino das lavouras é o consumo humano. Ao todo, são 19,9 mil pivôs centrais situados em uma área de 1,275 milhão de hectares. Em março de 2017, quando se comemorou o dia mundial da água, o Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) realizou uma mesa redonda intitulada “Água e agronegócio: para além dos mitos do consumo urbano”. Na oportunidade, o professor Marcelo Rodrigues Mendonça, um dos convidados a compor o debate, trouxe ao público uma reflexão: “se há uma questão hídrica, e há, essa questão é precedida por uma questão agrária”.

Marcelo apresentou investigações que abordam a destruição ambiental, a precarização do trabalho e a exploração dos recursos naturais (água, terra, biodiversidade) como consequências do agronegócio. E como resultado desses trabalhos citou a morte de veredas nas regiões de chapada, tanto em Goiás como em Minas Gerais, em função de desvios feitos para a irrigação de grandes lavouras. Ele lembrou, também, da poluição de mananciais em decorrência do uso excessivo de agrotóxicos nas plantações. “Se há mitos sobre a água, e há, também há o mito da modernidade tecnológica”, questionou.

Para o professor, é preciso lançar outro olhar sobre o tema da escassez de água. “Há que se entender que as disputas pelos territórios têm lastro do ponto de vista do poder econômico ou das construções históricas em que os atores locais estão inseridos”, defendeu. Ele citou como exemplo o fato de assentamentos da reforma agrária localizados no município de Cristalina, no entorno do Distrito Federal, não possuírem acesso à água. “Por que os camponeses não têm água? E por que essa água, em alguma medida, está sendo usada, ou para o modelo energético, ou para o agronegócio? É o que precisamos discutir”, denunciou.

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Fonte : Ascom UFG

Categorias : pesquisa edição 91

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