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Na vibe das mulheres DJs

Tema de pesquisa de mestrado, trajetória de DJs em Goiânia levanta discussão sobre o papel da mulher na sociedade

Thaís

Texto: Caroline Brandão
Fotos: Arquivo Pessoal

A música precisa ser sentida, do contrário ela perde seu poder de alcance. Para a pessoa que está em cima da picape ⎼ o espaço em que os DJs se posicionam com seus equipamentos ⎼ é importante que o público se entregue ao que ouve e viva um fluxo contínuo. Sem cortes, sem quebras, uma melodia se mixa à outra, e de forma quase imperceptível, o ritmo muda e todos continuam o movimento. Quem não consegue criar esse fluxo na festa, samba. E nesse caso ⎼ só nesse ⎼, sambar é quando o profissional não consegue ligar suas músicas na mixagem e deixa óbvio ao público quando uma melodia termina e a outra começa. Algo inadmissível entre eles.

Na vibe das mulheres DJs: sentimento, subversão e mixagem é o resultado de uma pesquisa de mestrado sobre as mulheres que conquistam cada vez mais esse ambiente musical e mostram que elas conseguem ser ótimas DJs, ao contrário do que muitos pensam. Edson Sucena Junior, autor da dissertação em Performances Culturais pela Escola de Música e Artes Cênicas (Emac), explica que existe uma funcionalidade nesses espaços só entre as mulheres que é diferente dos homens, o que enriqueceu muito a pesquisa, pensada inicialmente para ser sobre a trajetória dos DJs em geral do país.

Para o projeto, cinco profissionais do ramo em Goiânia foram chamadas para contar como vivem e fazem sua renda no mundo das casas noturnas e festas eletrônicas. Juntamente com o machismo no ambiente de trabalho, Edson percebeu a mudança na identidade visual das entrevistadas ao longo dos anos. "Os primeiros DJs do Brasil tocavam escondidos, atrás de panos, então eles não tinham visibilidade alguma. Com o avanço das décadas isso mudou. No início, quando essas mulheres [entrevistadas] se apresentavam, elas não se importavam muito com produção estética, mas depois elas passaram a se preocupar mais com cabelo, com a maquiagem forte, e eu percebi essa transição na identidade estética para atender o público", comenta. O resultado foi a percepção de uma identidade transitória entre as DJs, uma mudança contínua entre elas que conversa com suas próprias músicas, e que não é vista de forma negativa. Assim como as músicas são mixadas sem interrupção, as atividades cotidianas, seja na picape de uma festa, em casa ou com a família, se embaralham, e fazem delas personagens mais complexas e completas. Porém, elas apontaram ainda problemas na preocupação dos organizadores com suas imagens.

Graduandas na picape
No espaço acadêmico, não é difícil encontrar jovens que se dedicam aos cursos e à profissão para alcançar mais independência e sucesso. Thaís Oliveira começou sua carreira como DJ de maneira inesperada, após pedir a um amigo para aprender a mixar músicas. "Foi uma época em que estava difícil conseguir estágio na minha área e estava precisando da grana. Então eu pensei: por que não?". A ousadia foi recompensada e ela passou a ser procurada por vários organizadores de eventos. Quando o assunto é a conciliação entre faculdade e profissão, ela afirma que é preciso muita dedicação. "Já rolou algumas vezes de ter de tocar em um dia e no outro ter aula ou prova, mas na maioria delas, eu trabalho como DJ nos fins de semana. Então dá para se dedicar como DJ e na faculdade", afirma.

Quanto à sua vivência dentro das casas de shows e de eventos musicais, ela condena o machismo existente e o fato de muitas DJs não possuírem a oportunidade necessária para mostrarem seus talentos. "Quando comecei a tocar, não havia muitas mulheres DJs no cenário alternativo. O incentivo às mulheres começou de 2017 pra cá". Thaís também evidencia a presença masculina nos sons mais pedidos. "O que a gente vê ainda, infelizmente, é o line-up ⎼ as músicas escolhidas ⎼ composto na sua maioria por homens", relata.

Suzy

Fonte : Secom/UFG

Categorias : pesquisa Edição 94

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