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A vida que raiou nas correntezas do Araguaia

A construção de memórias e identidades da cultura Karajá a partir da fluidez de um rio sagrado e ancestral

Araguaia

Texto: Vinícius Paiva
Fotos: Divulgação

No fundo das águas moravam os Berahatxi Mahadu. Eles tinham uma vida plena para desfrute, mas, mesmo assim, um dos jovens que lá habitavam carregava consigo a necessidade de subir à superfície e experimentar um espaço que ele não conhecia. Então, o jovem buscou diversas passagens até que encontrou a de Inysedena, lugar da mãe da gente, na Ilha do Bananal. Após se encantar com todas as riquezas do Araguaia, sentir o vento soprar, a chuva cair e o sol se por, o jovem instigou outros a vivenciarem esse novo mundo. Mas como nem tudo que minava era bom, conheceram doenças e até mesmo a morte. Eles tentaram regressar, mas a passagem foi impedida por Koboi, chefe do povo submerso. Resolveram, então, povoar os entornos do Araguaia e construir uma nova forma de existência. Hoje, essa é apenas uma das narrativas de criação do povo Iny, conhecido pelos não indígenas como povo Karajá.

Construir diálogos e narrativas que signifiquem a relação dos Karajá com o Rio Araguaia é central para a existência desse povo. À vista disso, a Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do Projeto Rio Araguaia: Lugar de Memórias e Identidades - contemplado pelo Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás 2016, Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) e Governo de Goiás - realiza ações inspiradas pelo olhar indígena que contribuem para a inserção política da ciência nos territórios em que ela atua. "O objetivo é compreender a relação do povo Karajá com o rio, por isso o projeto é construído em espirito de união. Não é sobre o que o projeto leva, mas sobre o que ele aprende. Desse modo, podemos transformar esse aprendizado em aprimoramento teórico e metodológico", afirma a coordenadora, Camila de Moraes

Embasado na Arqueologia Etnográfica (que contempla a incorporação de métodos etnográficos ao fazer arqueológico), o projeto é permeado pela Arqueologia Subaquática e pela Arqueologia Colaborativa, com o intuito de entender o Araguaia como um espaço de ocupação humana. Segundo a vice-coordenadora do projeto, Andreia Torres, a arqueologia subaquática trabalha sobre os vestígios de materiais submersos e sobre aqueles que se encontram nas margens banhadas por essas águas ou em zonas alagadas. "Nesse entorno conservam-se diferentes objetos que só conhecemos parcialmente. Por meio deles podemos tentar entender as suas materialidades, ou seja, não só o significado que tiveram no passado, mas também a significação que eles têm no presente", afirma.

Araguaia

Ancestralidade
O povo que ascendeu do fundo das águas não poderia perder o contato com seus ancestrais. Por isso, há muitos anos a coletividade masculina dos Karajá compromete-se em trazer anualmente os aruanãs ⎼ que permanecem no nível subaquático. Assim, eles também podem conhecer o mundo além das águas e provar um pouco das belezas terrestres. A festa de Hetohoky, que significa Casa Grande, simboliza a passagem dos meninos, que representam a beleza e a força desse povo, para a idade adulta. Durante a celebração, comemorava-se na grande casa, que era construída nos arredores do Araguaia, a presença dos ancestrais que subiam para nominar os novos adultos e os ensinar, por meio dos pajés, a cuidar da Casa Aruanã. Essa é mais uma memória que sustenta a tradição da cultura Karajá.

Projeto
Dentro do projeto pode-se destacar três linhas de pesquisa. A primeira é direcionada a entender quais foram as marcas deixadas na pesquisa realizada na década de 1970 pela arqueóloga Irmhild Wüst. Com isso, o foco passa a ser a busca dos sítios identificados pela arqueóloga, bem como a compreensão das narrativas que influenciaram na demarcação das terras Karajá. A segunda linha é voltada à gestão comunitária dos bens arqueológicos, dialogando assim com a Musealização da Arqueologia. "O projeto pretende contribuir com o povo Karajá de Aruanã por meio do registro e da preservação de saberes e histórias, ao desenvolver processos de musealização em ambas as aldeias, afirma".

Segundo Camila, na terceira linha a reflexão é guiada para entender como as territorialidades, materialidades e cosmologias Karajá se interagem e constroem a paisagem do rio e como essa dinâmica se dá no presente. "Esse povo constrói seu território a partir do Araguaia, tendo desenvolvido, no passado, uma intensa dinâmica de ocupação entre aldeia permanente às margens do rio, acampamentos de pesca em lagoas, exploração de locais para coleta de matérias-primas, caça e, por fim, aldeias temporárias nas praias em período de vazante. Por conta disso, o projeto mapeou locais e novos sítios arqueológicos", explica.

Colonização, extermínio e resistência
O município de Aruanã possui duas terras indígenas, Karajá de Aruanã I e III, e, do lado mato-grossense do Araguaia, a terra Karajá de Aruanã II. Camila de Moraes relembra que a cidade, antigamente denominada Santa Leopoldina, teve sua origem associada a um presídio militar erguido em 1848. Três décadas depois, sob o controle do general Couto de Magalhães, foi inaugurada a navegação a vapor no rio, como estratégia de expansão de fronteiras, no âmbito da geopolítica colonialista.

Três anos depois, em 1871, nesse mesmo município, foi construído o Colégio Santa Isabel, que tinha por objetivo despertencer as crianças indígenas de suas crenças, catequizá-las e controlá-las a partir de uma religião europeia imposta por colonizadores. No ano de 1992, iniciou-se o processo de reconhecimento e delimitação das terras indígenas, com diversas portarias publicadas em 1996. Mesmo assim, questionamentos continuam tramitando e insistindo em não reconhecer as terras indígenas ocupadas tradicionalmente. Em reflexão, o professor Manuel Ferreira de Lima, da UFG, aponta: "De fonte de vida, o rio Araguaia foi tornando-se, com o passar dos anos, uma veia aberta nas terras dos Karajá".


Caminhos do Araguaia
"Um Karajá sem canoa não é Karajá"
Tiago Fraga

A navegação é um dos sentimentos que alicerçam a vida dos Karajá e, por isso, eles mantêm uma relação de proximidade especial e única com as canoas ao considerá-las como membros de ouro de suas famílias. Perceber como os artefatos e os hábitos construídos por esse povo entrelaçam-se ao fluxo do rio como paisagem cultural, existência e caminho é entender as experiências sensíveis de pertencimento de quem reside e de quem visita o Araguaia. "Desafio todos os leitores a olhar de novo para as suas águas e o seu entorno e perceber como os artefatos e os hábitos vivenciados pelos Karajá de Aruanã constroem o Araguaia tal como ele é, como podemos percebê-lo hoje em dia", convida Andreia Torres.

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Meio ambiente Edição 94

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