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Rubens Ricupero - Sistema político falido clama por reformas

Em entrevista ao Jornal UFG, embaixador Rubens Ricupero fala sobre o atual cenário político e as relações externas estabelecidas pelo Brasil

Kharen Stecca e Carolina Brandão

O embaixador Rubens Ricupero esteve na Universidade Federal de Goiás (UFG) em maio para participar de eventos e também lançar seu novo livro, que, como ele mesmo explica, não separa política interna de política externa: "Até agora os livros de história do Brasil, em geral, dedicam pouca atenção aos acontecimentos externos enquanto os de história diplomática concentram-se apenas na parte externa, como se ela se passasse num vácuo, como se a diplomacia não fosse explicada pela política e pela economia (e a cultura, e a sociedade) de cada país". Na entrevista, o embaixador analisou assuntos importantes, entre eles, a política unilateralista do presidente norte-americano Donald Trump, que ele classifica como uma ameaça a países como o Brasil, e as mudanças com relação aos partidos políticos, que para ele são o fim de uma era em nosso país. Confira na íntegra a entrevista concedida ao Jornal UFG.

Rubens Ricupero na UFG

Rubens Ricupero durante palestra no auditório da Biblioteca Central da UFG (Crédito: Amanda de Oliveira)

Sua carreira já tem quase 60 anos, com atuações em Washington e Genebra. O que percebe de mudanças no Brasil no período em que começou seu trabalho?

Rubens Ricupero - Comecei minha carreira diplomática no governo JK, no final dos anos de 1950, começo dos anos de 1960. Ao longo desses quase 60 anos, testemunhei ou participei das principais mudanças na diplomacia brasileira. Destaco, acima de todas, a Política Externa Independente (PEI), inaugurada por Jânio Quadros e continuada especialmente pelos ministros San Tiago Dantas e Araújo Castro, sob o governo Goulart até seu fim brusco no golpe militar de 1964. Foi essa a grande ruptura com a tradição que vinha do passado, consistente em apoiar os Estados Unidos nos temas mundiais ou do continente norte-americano em troca de apoio norte-americano às posições do Brasil na América do Sul. Como mostrei em meu recente livro A diplomacia na construção do Brasil, a PEI recusou a lógica da Guerra Fria, a tendência de olhar todas as questões mundiais, até as lutas de emancipação colonial de Angola, Moçambique e outros povos como mero episódio da disputa ideológica entre Leste e Oeste. Passou-se a examinar cada problema nos seus próprios méritos e definir a escolha brasileira em termos de nossos interesses.
Interrompida nos primeiros governos militares, que retornaram à política ideológica anticomunista, a orientação da PEI foi retomada na época do Ministro Azeredo da Silveira sob o governo Geisel. Tornou-se, desde então, o paradigma dominante de todas as diplomacias no período de democratização. Esse paradigma pode ser definido como a “busca da crescente afirmação da autonomia do Brasil”, isto é, da adoção de posturas internacionais que correspondem aos nossos interesses, não a orientações impostas de fora ou deduzidas de ideologias rígidas. Com altos e baixos, tem sido essa a orientação predominante, os melhores momentos coincidindo com governos de êxito político e econômico, como os de FHC e de Lula, os piores resultando de fases de profunda crise do sistema político e da economia, como nos governos Dilma e no atual.

Em palestra na UFG, o senhor mencionou a política de Donald Trump, a atitude dura de ele sempre posicionar os Estados Unidos como prioridade, como ele mesmo disse na posse, "América em primeiro lugar". Essa nova postura dos EUA com outros países e até outras instituições, como a ONU, pode afetar o Brasil?

Pior que na Guerra Fria, a política externa de Trump tende a erodir e enfraquecer de modo perigoso o sistema internacional da ONU e das organizações mundiais instalado 73 anos atrás, no final da 2ª Guerra Mundial, ironicamente por iniciativa principal dos EUA. Esse sistema é baseado em leis, regras, normas (a Carta das Nações Unidas, os tratados e convenções sobre Direitos Humanos, meio ambiente, comércio, desarmamento etc). Outro de seus pilares é a democratização do processo decisório, isto é, a tentativa de encontrar solução aos grandes desafios mundiais por meio de negociações, da ação cooperativa da maioria dos países. Como, por exemplo, fez o Presidente Obama ao negociar com a China entendimento que abriu caminho ao Acordo do Clima de Paris ou o empenho dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha para negociar e assinar o acordo com o Irã sobre a não proliferação nuclear. Em lugar disso, Trump não esconde o desprezo por leis, normas, organizações e sua confiança exclusiva na imposição do poder unilateral dos EUA sobre os demais. É o que acabamos de ver na imposição de cotas ou tarifas proibitivas ao aço e alumínio importado pelo mercado americano. A decisão é inteiramente ilegal do ponto de vista da Organização Mundial de Comércio, causou grande prejuízo aos exportadores brasileiros de aço. Estes, no entanto, foram obrigados a aceitar as cotas, porque a alternativa seria ser excluído do mercado americano. Esse é um exemplo concreto que mostra, na prática, porque o unilateralismo do poder é uma ameaça a países como o Brasil, que têm pouco poder militar e/ou econômico e dependem, para proteger seus interesses, da invocação da lei e do direito.

O senhor refere-se ao pouco intercâmbio de saberes entre a América Latina e o Brasil e a falta que um centro de estudos sobre isso faz na nossa região. De que maneira estimular os estudos sobre América Latina ajudaria a nossa política externa?

Recordei que, em 1961, o professor George Agostinho da Silva, português que está na origem do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, desejava estabelecer em Goiânia, com minha colaboração, um Instituto de Estudos da América Latina, aproveitando o aumento de interesse pela política externa no governo Quadros. Infelizmente, o projeto não resistiu ao agravamento da crise brasileira que culminaria no golpe militar. Continuo a pensar que faz falta uma entidade de excelência que desenvolva no Brasil o gosto e a inclinação pelo estudo dos países vizinhos. É uma pena, mas os projetos de integração latino-americana limitaram-se, quase exclusivamente, ao comércio. Até hoje, o brasileiro culto, mesmo os universitários, conhecem muito pouco da história, da literatura, da cultura, das artes, do pensamento de nossos vizinhos. Estes, aliás, nos pagam na mesma moeda: ignoram tudo do Brasil. Nesse desconhecimento encontra-se a raiz da indiferença e da superficialidade dos avanços da integração.

O senhor também comentou sobre os anos 1980, quando a ditadura acabou e o senhor tornou-se assessor de Tancredo Neves. Aquele foi um período de criação de uma era: a dos partidos políticos como conhecemos hoje. Mas, segundo sua fala, essa era está ameaçada. O que espera que surja no país após esse momento de crise institucional política que vivemos? Uma nova era vai surgir?

Estamos vivendo o fim de uma era, os últimos momentos de um ciclo, o iniciado em 1985 com a retirada dos militares do poder e o início da Nova República. O atual período já dura mais de 33 anos, duração superior à maioria das fases da história brasileira. As lideranças surgidas naqueles anos (primeira metade dos anos 1980, transição para o fim do período militar) – FHC, Lula e outros que vinham de antes (Ulysses, Brizola, Covas, Tancredo e tantos outros) – ou já desapareceram da cena, ou estão prestes a isso. Da mesma forma, as organizações partidárias representativas das opções de então, sobretudo o PT e o PSDB, estão se desagregando, pois todas acabaram comprometendo-se com o mecanismo de transferir recursos ilegalmente da economia a fim de financiar campanhas e enriquecer políticos. O sistema político brasileiro sofre de um câncer que já atingiu a metástase. Se o sistema, isto é, o Congresso, o Judiciário, o Executivo, os partidos, não forem capazes de autorreforma, de mudanças que cortem na própria carne, cedo ou tarde o sistema atual se tornará cada vez mais disfuncional até chegar à ruptura. O ideal seria que o sistema revelasse a capacidade de aperfeiçoar a Constituição de 1988 mediante as reformas abundantemente discutidas. Uma nova era só será melhor se refletir a capacidade de retificar o que deu errado.

Nos fale um pouco do conteúdo do seu novo livro, sobre as relações externas em conjunção com a política.

Meu livro se propõe a mostrar que a política externa não pode ser separada da política interna e da economia. Nesse sentido, preenche uma lacuna, uma vez que até agora os livros de história do Brasil, em geral, dedicam pouca atenção aos acontecimentos externos enquanto os de história diplomática concentram-se apenas na parte externa, como se ela se passasse num vácuo, como se a diplomacia não fosse explicada pela política e pela economia (e a cultura, e a sociedade etc) de cada país. Busquei integrar todos esses aspectos numa só história. Além disso, dediquei especial atenção à evolução contemporânea, aos acontecimentos mais próximos de nós, pois o livro chega até o impeachment de Dilma em 2016. Também me esforcei em indicar que o Brasil é um dos países que mais devem à diplomacia, não em relação ao território, que, se não fosse o trabalho dos diplomatas, seria hoje menos de um terço do que é. A abertura dos portos, o comércio, a imigração, a independência, os investimentos, tudo está intimamente associado à obra da diplomacia. Por sua vez, a política externa contribuiu imensamente para a definição e adoção dos valores nacionais: a paz com todos os 10 vizinhos há quase 150 anos, a ausência de problemas limítrofes sérios, a tradição de resolver todos os problemas por negociação, espírito de compromisso, equilíbrio, propostas construtivas. A ideia que os brasileiros fazem de si próprios têm muito a ver com a contribuição da diplomacia.

Para o senhor, qual o papel das universidades na mudança de paradigmas no Brasil em que estamos vivendo? Ela está no caminho certo?

Penso que a universidade brasileira, depois de uma fase de expansão muito acelerada, necessita concentrar forças na busca da excelência acadêmica e na difusão do conhecimento pelas comunidades em que cada unidade universitária se encontra inserida. A função da universidade deve se estender ao terreno da definição do projeto do país que falta construir, sobretudo nos campos da educação, da redução da desigualdade e na inserção dos excluídos.
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Fonte : Secom/UFG

Categorias : entrevista Edição 95

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