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Arte e Cultura

Dança com a gente?

O convite daqueles que fazem da própria diferença seus passos de esperança

Vinícius Paiva

Sugerimos. Sugerimos que, ao entrar, tire seus sapatos. Convidamos. Pra dançar. Vem? Se o mundo acabar hoje, estaremos juntos, dançando, eu e você! Naquela tarde de janeiro, o convite foi lançado. Com as mãos delicadas, num gesto de repouso, a tradutora com sua blusa rosa, calça jeans e seus belos brincos de argola conversava com as mãos enquanto todos chegavam. Tantos rostinhos. Olhos sorrindo. Os corpos começavam a se conectar. A sentirem o lugar. O chão. As paredes. O ar. Os espelhos justificavam o porquê de cada um estar ali. Ao fundo, um celular em ligação se confundia com a música que já começava a fazer sucesso, mas ninguém se importou.

Se o mundo acabasse naquele dia, estariam dançando. Juntos. Todos habitavam a mesma casa. Era um espaço grande, branco, bonito, largo, espaçoso. Era vivo. Era lindo. De repente, um moço bravo entrou na sala, mas todos riram. Henrique Amoedo. Ele não consegue. Não há seriedade que dê conta de domar a leveza de sua alma. Oh, alma. Alma que dança e se conecta com todos que queiram bailar. "Professor, já vamos começar?". "Sim, troquem de posições". Mudaram de estação, mas nada mudou. Se o mundo acabasse naquele dia, estariam dançando.

Todos se entregavam. Corpos que percebiam suas necessidades. Corpos preguiçosos numa tarde de quinta começando a se despertar para uma tarde de luta. "Posso te ajudar, Ana?". Ana nem precisava de ajuda, mas estava tão preguiçosa naquela tarde. Não sabemos o que se passava naquela cabeça, mas o ensaio já havia começado. Não era hora de voltar atrás. A porta se abria. Mais gente chegando. Eba. Começava o calor. Todo mundo amontoado. Mexiam o ombro. Para um lado. Para o outro. Mexa seu ombro. Para um lado. Para o outro. Para frente. Para trás. Os pés mexiam, esticavam e voltavam. Estique e volte. A preguiça de Ana já tinha ido embora. Seus pés iam e voltavam. Se o mundo acabasse naquela tarde, ela estaria dançando.

Corpos em movimento. Todos no seu ritmo. Sincronizados com seus próprios corpos. Que sintonia! Sintonize-se. Respire. Rummmmmmm. Aaaaaaah. Rummmmmmm. Aaaaaaah. Bem forte. Respire. Rummmmm. Expire. Aaaaaaaaah. Todos deitaram. Mas não era para dormir. Era para se reinventar. Buscar o novo. Como estar no chão e se erguer diferente de como todos se levantam? Como não se levantar como você se levantava há um tempo? Se o mundo acabasse naquela tarde, todos estariam reinventando suas formas de se levantar. Menos Ana, que resolveu debruçar-se em cima da moça do lado. Enquanto todos se levantavam, chegava uma criança de blusa cinza. Tantos gritos. Todos se levantaram. E ele se adentrou energizado.

No meio de todos, Marcos era o galã. Com uma calça preta e uma camiseta branca, o jovem sorria, piruletava e brincava com todos que estavam à sua frente. Como manter o físico não é brincadeira, no intervalo mesmo, Marcos parou para comer um pão dos grandes com presunto. Ana continuava lá, parecia que ela não queria fazer muito. “Bora, Ana” - gritou Amoedo. Ana sentou-se. Na outra ponta da sala, um menininho com camiseta do Superman, sendo seu próprio super-herói. Se o mundo acabasse naquela tarde, o garoto estaria dançando, mas, principalmente, fazendo o contrário do que todos esperavam dele, se reinventar.

Enquanto esperava, pensei estar atrapalhando e ocupando o espaço da dança. Que burro. Subestimei os que ali estavam. Aprendi. Não era sobre sair de perto para que ninguém se machucasse. Era sobre observá-los controlar bem suas pernas para que não ultrapassem os limites do espaço que já era programado. O tempo passava e os corpos continuavam dançando loucamente. Pá. Pá. Pá, marchavam. A coisa começou a ficar séria. O clima de guerra já se instaurava. Gritos. Correria. O cenário começava a ser criado. Era apocalíptico. Como o clima mudou. O aquecimento fez todo efeito. A inspiração. PÁ! Barulhos de guerra. Pessoas nervosas.

Deu certo! Da paz à guerra. Do aquecimento ao ensaio. Henrique, entusiasmado, já sentia o cansaço bater naquela tarde de ensaio. Marcos, intacto, continua sendo o galã. Ana, danada! Guardou o melhor pro final. Perna pra cima. Perna pra baixo. Giradinha. Pernas abertas. Ombro pro lado. V de vitória nas mãos. Piscadinha sorridente. Ela havia criado seu próprio passo. Charmosa. No seu tempo para viver o seu momento.

Naquela tarde, pessoas com deficiência física, idosos, mulheres gestantes, obesos, crianças, pessoas com Down, homossexuais, surdos e mudos dançaram. Dançaram a sinfonia mais bonita que poderia ser dançada. Dançaram com a diferença. Dançaram como humanos. Dançaram uns com os outros. Dançaram com o imaginário social, com suas próprias expectativas e com o queixo da limitação dos sujeitos que não se colocam como diferentes. Dançaram com o próprio prazer de seus corpos. Com a sua própria subversão. Se o mundo acabasse naquela tarde, estariam dançando. A resposta é sim?

O programa Se Liga na UFG já falou sobre o projeto Dançando com a Diferença. Confira!

Dançando com a diferença

(Fotos: Amanda Costa)

 

Box Dançando com a diferença

Rodapé

Fonte : Secom/UFG

Categorias : Extensão Edição 96

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