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Retranca Doação Órgão

Conscientização em prol do transplante de órgãos

Liga Doa-Goiás da Faculdade de Enfermagem esclarece profissionais de saúde e população sobre a doação de órgãos

Kharen Stecca

Acadêmicas da Liga

A morte é um grande tabu. Apesar de ser nossa única certeza, evitamos pensar na possibilidade de que aconteça conosco ou com entes queridos, em especial mortes trágicas e inesperadas. No entanto, é nesse momento de dor e tristeza que tudo pode mudar para as mais de 33 mil pessoas que estão em filas de espera de doação de órgãos, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

Para tentar aumentar as chances de que familiares autorizem a doação e profissionais de saúde sejam mais esclarecidos sobre o procedimento, a Faculdade de Enfermagem criou sua primeira liga acadêmica, a Liga Doa-Goiás. Em parceria com a Central de Transplantes de Goiás, a Liga realiza campanhas de conscientização, cursos para profissionais de saúde para a formação de Comissões Intra-hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTTS), além de atividades de pesquisa na área e uma disciplina de núcleo livre aberta a todos os cursos da UFG sobre o tema. Das redes sociais, passando por escolas técnicas de enfermagem a praças e hospitais e até em shoppings, a Liga Doa-Goiás leva informação sobre o processo de doação de órgãos: “O esclarecimento é a principal forma de conseguir aumentar o número de órgãos doados”, afirma a professora Regiane Barreto, uma das professoras envolvidas na Liga, juntamente com a professora Karina Suzuki e Thaisa Cristina Afonso, todas da Faculdade de Enfermagem, além de 12 estudantes que participam das ações.

A professora Regiane ressalta o resultado do núcleo livre como exemplo do papel da informação: “Quando começamos o curso perguntamos quem era doador de órgão e após um semestre tornamos a perguntar e é notória a quantidade de pessoas que passam a levantar as mãos. Isso apenas com informação correta”, afirma a professora.

Um doador falecido pode ajudar até 10 pessoas com órgãos como pâncreas, rins, fígado, pulmões, coração, intestinos, córneas, ossos, além de tecidos e pele. Em Goiânia, são realizados transplantes de rins, córnea e começam a ser feitos transplantes de fígado. Os demais órgãos são enviados para outros locais com potenciais receptores, em especial, São Paulo e Brasília. Goiânia ainda não capta pele e ossos.

Lia Doa Goiás

Os maiores captadores de órgãos são os dois hospitais de urgência de Goiânia: Hugo e Hugol. Até porque são os hospitais que recebem mais pacientes vítimas de traumas, pois 70% dos casos de notificações de potenciais doadores, são mortes por traumatismo cranioencefálico, geralmente ocasionado por acidentes de trânsito. Mas isso não impede que outros hospitais também façam as notificações. No entanto, esse número de notificações poderia ser maior se houvesse mais preparo e sensibilidade por parte dos profissionais de saúde de todos os hospitais. Ainda hoje, há profissionais que não conhecem esse tema profundamente, pois não consta nos currículos das faculdades.

 

Doação de órgão Goiás

 

Como é definida a doação de órgãos

O processo entre a notificação, passando pelo protocolo de exames de morte encefálica, e a entrevista e a aceitação da família precisa ser rápido. “Só se pode receber um órgão de um paciente cuja morte cerebral foi constatada, mas o coração ainda bate com apoio dos aparelhos e medicações”, explica a professora. Pacientes que sofreram parada cardíaca só podem doar tecidos, como córneas, por exemplo.

Segundo Regiane, um dos pontos nevrálgicos é os profissionais de saúde diagnosticarem os potenciais doadores de órgãos. Além disso é preciso possuir equipes treinadas para realizar o protocolo de morte encefálica, composto por dois exames clínicos e um exame de imagem. Constatada a morte cerebral, uma equipe com treinamento em “comunicação de más notícias”, geralmente um psicólogo, enfermeiro ou médico entra em contato com a família explicando a situação e pedindo a autorização para a doação de órgãos. “Esse processo pode ser rápido, mas a família pode pedir tempo para pensar e esse tempo é concedido. Nesse caso, há um risco de que, com a demora, não seja possível doar os órgãos”, explica Rejane. A professora Karina Suzuki também ressalta que só é permitida a doação se todos os familiares presentes autorizarem: “Se for um grupo de 10 pessoas e uma não autorizar, não é possível encaminhar a doação de órgãos”.

 

Como é viver a experiência?

O Jornal UFG colheu relatos de pessoas que passaram pela triste notícia da perda de um ente querido e pela decisão de doar os órgãos. Veja como foi a experiência de Laurianna e Steffane, irmãs de doadores.

“Não é fácil realizar um relato sobre doação de órgãos. Primeiro porque falamos de morte. Da falta e da saudade de um ente querido. É relembrar o acidente que tirou sua vida. Como falar de uma parte dele sem falar do todo? Como fazer um relato sem ser perpassada por esse sentimento de falta? Um sentimento de tudo que poderia ter sido. Mas quando eu penso nisso tudo hoje, sei que uma parte dele está aqui. Talvez esse tenha sido um dos motivos de realizar a doação. Sei que ele não se foi completamente. Ele ficou em nossos corações, dos familiares e amigos que o amaram e amam. Mas tem mais: meu irmão era uma pessoa muito iluminada, gostava de músicas que falavam da realidade social, de injustiças. E isso me marcou muito. Seu olhar descortinado de preconceitos conversando com moradores de rua. Penso que ele teria ficado feliz em fazer o bem para uma outra pessoa. E quem sabe a doação de órgãos não seja isso: transformar a morte e a dor em vida e alegria para um outro alguém? Eu não pude consultar minha mãe na hora, fui ao reconhecimento no IML com dois conhecidos e lá me abordaram falando sobre essa possibilidade. Eu tinha que decidir, e acredito que era o que ele queria. Um mundo melhor com pessoas que façam o bem ao outro, que transformem morte em vida. Essa experiência me fez repensar muito sobre minha vida e como me envolvia com o mundo, com o coletivo. Não basta ser uma boa pessoa, é preciso fazer algo para transformar o "sangue fundido em concreto" em uma atitude positiva.” (Laurianna A. N. S. Vieira)

“Em julho meu irmão Lorran Porto, que estava internado na urgência do Hugol há cerca de três dias, foi diagnosticado com morte encefálica. Os médicos fizeram todos os exames para comprovar a morte encefálica, pois ele não estava reagindo a nenhum estímulo. Não havia mais nada que estivesse ao alcance dos médicos a ser feito. Por volta das 3 horas da manhã ligaram do hospital para a família ir até o hospital para que a assistente social pudesse informar a morte encefálica. Fomos até o hospital, eu, minha mãe e meu irmão. A enfermeira responsável foi até a sala para conversar com a minha família a respeito da possível doação dos órgãos. Ligamos para o meu pai e ele disse que por ele não doava os órgãos, mas o que nós decidíssemos, por ele estava tudo bem. Naquele momento me lembrei de que uma semana antes fui na secretaria do curso de Enfermagem da UFG e havia um calendário de doação de órgãos que tinha uma frase muito bonita: De repente, o que você chama de fim, pode ser um novo começo. Falei para minha mãe e o meu irmão que os órgãos dele poderiam salvar a vida de outras pessoas e que um pedacinho dele ia trazer a esperança de outras famílias e que tenho a certeza de que, se ele estivesse aqui, essa seria a sua vontade. Assim, decidimos doar os seus órgãos e tenho a certeza de que por meio dos seus órgãos conseguimos levar a felicidade para outras famílias.” (Steffane Jordana)

 

Doação no Brasil

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Categorias : Saúde Edição 99

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