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Goiânia traduzida em nove linguagens

Pesquisa identifica um diverso repertório arquitetônico, composto por casas construídas nas quatro primeiras décadas da capital

 

 

Uma casa normanda por entre prédios na Avenida Tocantins

Uma casa normanda por entre prédios na Avenida Tocantins

 

Texto: Patrícia da Veiga | Fotos: Ana Fortunato

Goiânia é uma cidade embalada pelo ideário moderno desde o nascimento. Nesse sentido, valores como desenvolvimento, aceleração, acumulação e funcionalidade sempre fizeram parte de sua estrutura. Em apenas oito décadas, a cidade cresceu e se transfigurou intensamente, produzindo um patrimônio arquitetônico marcante, variado e de múltiplas influências estéticas. Empenhado em identificar, registrar e tornar pública essa trajetória, antes que ela se apague no tempo e no próprio espaço, o Laboratório de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Artes Visuais (LAU/FAV) produziu um inventário reunindo informações sobre 339 casas construídas entre as décadas de 1930 e 1970.

O estudo, intitulado Inventário de Arquitetura Residencial Unifamiliar em Goiânia, foi feito em 2015 e 2016, em cooperação técnica com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e com o apoio do Ministério Público de Goiás. Na oportunidade, uma equipe de 25 pessoas, coordenada pela professora Eline Maria Moura Pereira Caixeta, organizou um detalhado banco de dados sobre o núcleo inicial da cidade e seus arredores, com o objetivo de fornecer subsídios a futuras pesquisas e a possíveis ações de preservação do patrimônio.
Baseado em investigações feitas entre os anos de 2007 e 2015, o grupo delimitou como área de atuação principal os setores Central e Sul. Nestes dois bairros foi feita uma varredura completa, visitando os espaços, fotografando-os e analisando-os em relação à paisagem e ao contexto de seu entorno. Neste processo, foram identificados 298 imóveis, entre bens isolados e conjuntos de casas. Uma segunda área estudada compreendeu partes dos setores Aeroporto e Oeste. Nesse território, a identificação das casas se deu por meio de derivas direcionadas e levantamento de dados. A partir de arquivos históricos, foi possível reconhecer edificações também nos setores Marista, Bueno e Universitário.

O grupo utilizou como metodologia de trabalho o Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Iphan (SICG). Essa ferramenta, uma vez adaptada às necessidades do Inventário e às características de Goiânia, possibilitou a organização das informações e gerou 25 mapas conceituais da cidade. Das 339 residências, 180 foram selecionadas para um estudo mais aprofundado e 29 receberam fichamento completo, tendo suas plantas reconstituídas. O patrimônio investigado foi valorado de acordo com critérios técnicos, tais como excepcionalidade, potencial de risco, estado de conservação e estado de preservação.

 

A emblemática residência do escritor Bariani Ortêncio, na Praça Cívica

A emblemática residência do escritor Bariani Ortêncio, na Praça Cívica


Repertório

A surpresa do estudo é que Goiânia não possui somente um conjunto arquitetônico Art Déco. Possui, em verdade, um variado repertório que vai desde o Eclético Neocolonial até a mais Modernista das casas. Ao todo, foram encontradas nove linguagens diferentes (veja mais no quadro ao lado) espraiadas por uma faixa territorial que vai além do núcleo já tombado. E tudo isso, para a professora Eline, diz respeito a um mesmo espírito forjado na construção da nova capital. “Independentemente do estilo, todas as casas são modernas, pois têm uma mesma relação com a cidade e seu contexto”, afirmou.

Outra revelação do inventário, que não se limitou a estudar as casas e fez uma leitura histórica, iconográfica e sensorial da paisagem urbana como um todo, é que há um movimento de especulação imobiliária no entorno dos bens históricos – o que os torna constantemente ameaçados. “O Setor Sul, por exemplo, teve a sua área verde drasticamente reduzida. Essa transformação me deixa muito assustada”, confirmou a superintendente do Iphan em Goiás, Salma Saddi.

De acordo com Dafne Marques de Mendonça, arquiteta do Iphan e supervisora do trabalho, é da dinâmica de Goiânia a transformação acelerada, o que o inventário levou em conta, mas isso não impede que se lute pela preservação do patrimônio. “Goiânia muda rápido e essa dinâmica constitui a sua história. Mas há muito ainda a se reconhecer. O inventário foi importante para nos proporcionar um apuramento desse olhar”, declarou.

 

Exemplar do estilo Eclético Missões  na Rua 24

Exemplar do estilo Eclético Missões  na Rua 24


Memória viva

Que histórias de vida podem ser localizadas junto ao patrimônio arquitetônico de Goiânia? Quem ainda reside nessas casas? Que lembranças guardam? Ao circular pela cidade, a equipe do Jornal UFG conheceu Nancy Neo de Almeida, professora aposentada da Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia do Estado de Goiás (Eseffego) e egressa do curso de Letras da UFG. Aos 69 anos, ela não se lembra de habitar outro endereço que não o atual: Rua 8, entre a Rua 5 e Avenida Paranaíba, no Setor Central. “Quando meu pai construiu essa casa, não tinha nada em todo o quarteirão”, afirmou.

De sua infância, ela se lembra da árvore que já dava frutos no quintal e do alpendre que recebia os visitantes. Da juventude, Nancy recorda de uma reforma que modificou a fachada da casa e transformou “em tudo reto”, sem os portais suntuosos e arredondados que ampliavam a entrada da residência – o que se vê ainda hoje. Da vida adulta, Nancy conta da edícula construída nos fundos do terreno, que já foi uma academia, depois serviu de moradia para sua irmã. “Mas a casa ainda está conservada, os tacos, os vitrais e os portais são os mesmos”, informou. Lá dentro, móveis de 1960, 1970 e 1980 convivem com os porta-retratos, os tapetes e as cortinas de décadas anteriores. “Aqui estão minha mãe, meu pai, meus irmãos e eu, essa bebezinha”, apontou para a foto.

 

Casa onde Nancy Neo sempre viveu com a família conserva originalidade

Casa onde Nancy Neo sempre viveu com a família conserva originalidade 


Bem perto de Nancy está o antigo lar de uma família cujos pais já faleceram e cujos filhos já se mudaram. No lugar há uma clínica de otorrinolaringologia e uma reforma em andamento. Arnaldo Mascarenhas Braga, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU), é o responsável pelo imóvel, herdado por sua esposa. “Aqui ficou abandonado por muito tempo, mas hoje estamos tentando revitalizar”, apresentou. Ele convidou nossa reportagem para entrar e conhecer o interior da residência, classificada como Eclética. “Essa escada de mármore eu consegui manter”, apontou.

Também recebeu visita Maria Ludovico, professora de música aposentada da UFG e sobrinha-neta de Pedro Ludovico Teixeira. Aos 83 anos, ela mora com parte da família em uma das primeiras casas construídas na Rua 24. Coberta por mangueiras, a edificação simples mantém a fachada original, bem como as janelas e portas de madeira. Apenas uma grade dividindo o quintal e a rua foi construída com o correr dos anos.

 

casa histórica goiânia ainda precisa de restauração

Muitos imóveis ainda precisam de restauração

Nos três casos, foi possível identificar um aspecto apontado pelo inventário que diz respeito à consciência de preservação das casas. Os moradores ou ex-moradores sabem reconhecer a beleza e a qualidade dos materiais originais e primam pela sua sobrevivência, de algum modo. Mas houve casos diferentes, conforme relatou a professor Eline Caixeta na oportunidade de lançamento do Inventário: “encontramos os que não compreendem o valor da residência enquanto patrimônio histórico, em função da aparência da casa, por terem menor porte e fachada simples. Não por acaso, essas residências apresentam uma maior quantidade de modificações”. Para ampliar tal entendimento, o grupo pretende, em breve, realizar uma oficina com a comunidade.

A permeabilidade do solo e a conservação de materiais foram outros aspectos apontados pelo Inventário como algo comum entre as casas. Todas as residências visitadas pelo grupo de arquitetos apresentaram o jardim frontal ou o quintal já reduzidos (ou até mesmo suprimidos) pelo cimento, o que diminui a área permeável dos lotes. Por outro lado, a equipe encontrou várias residências com pisos intactos de madeira (tábua corrida, tacos em espinha de peixe ou em losangos), granito, lajota cerâmica, cacos cerâmicos e azulejos.

 

 Brutalista  Casa-Tipo  Eclético Tipológico Normando
Brutalista
Apresenta o mesmo intuito de inovação da casa modernista, com ênfase na exposição da estrutura do edifício e na valorização estética de determinados materiais e técnicas, como o uso aparente dos materiais construtivos (concreto, tijolos maciços e estrutura metálica) e instalações à vista.
Casa-Tipo
O Inventário da Arquitetura Moderna atribuiu essa denominação a residências construídas pelo governo do estado para servir como moradias de funcionários durante a construção da nova capital. Houve diferentes variações de casas-tipo. Estas casas funcionaram como modelos de uma nova forma de habitar e construir.
Eclético Tipológico Normando
Casas inspiradas nas construções da região da Normandia, na França, cuja a imagem mais marcante é a cobertura bastante inclinada no sótão e a construção em enxaimel, muitas vezes substituindo os caibros aparentes de madeira por sua representação em argamassa.
Eclético Tipológico Neocolonial   Eclético Tipológico Missões Eclético sintético
Eclético Tipológico Neocolonial
Casas que reúnem elementos ornamentais inspirados na arquitetura civil e religiosa do período colonial brasileiro, dentro de uma nova síntese formal e espacial.
Eclético Tipológico Missões
A intenção desse estilo é produzir uma arquitetura nova ligada a temas da cultura hispânica.
Eclético sintético
Casas que combinam elementos de vários estilos e períodos diferentes, buscando o aprimoramento da edificação.
Modernista de Transição Moderno Déco Modernista
Modernista de Transição
Residências que se aproximam do vocabulário modernista, porém de modo epidérmico, não apresentando inovações formais, funcionais ou construtivas, características da casa modernista.
Moderno Déco
Está entre o ecletismo e modernismo. É eclético por misturar elementos decorativos geometrizados, tomados de diversas culturas, e é modernista por aproximar-se da estética da industrialização, com uma tendência à abstração na linguagem.
Modernista
As residências modernistas buscam romper com os padrões dominantes, inovando na organização dos espaços, na utilização de novos materiais e técnicas e na adoção de uma linguagem abstrata, desvinculada do passado.

Categorias : cidade edição 87

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