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O sentido de Universidade na era da pós-verdade

Reflexões sobre o termo que ganhou fama como palavra do ano de 2016

Daniel Christino

 

Texto: Daniel Christino | Foto: Macloys Aquino / Adufg

O termo “pós-verdade” ganhou fama depois que a Oxford University Press o escolheu como palavra do ano de 2016. Segundo o jornal The Guardian, o uso do termo, em inglês, aumentou em até 1.000% em relação a 2015, especialmente durante a eleição americana e do plebiscito para a saída do Reino Unido da União Europeia. Eis a definição dada pelo Oxford Dictionary: “que se refere a ou denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. Há nesta escolha um esforço de tematizar o impacto da tecnologia em nossos hábitos de consumo de informação e suas repercussões na arena política e cultural que viraram as redes sociais. Há, claro, o pressuposto de que “nós somos aquilo que consumimos”, especialmente se o produto consumido for informação. Mas por que nós, da Universidade, deveríamos nos importar com o fenômeno ao qual o termo está associado para além de um interessante como objeto de pesquisa?

O sentido imediato evocado pela definição é o de que, quando falamos em política, crenças e afetos são mais decisivos para a tomada de atitude do que fatos objetivamente comprováveis. Esta não é, todavia, uma afirmação muito escandalosa. O peso das emoções em nossas escolhas já era estudado entre os gregos na retórica. Aristóteles afirmava que o processo de escolha moral era precedido pela prudência e pelo hábito, sendo este último um exercício constante imposto pela lei e pela educação desde a infância. Do mesmo modo, um famoso estudo em psicologia social chamou de “dissonância cognitiva” o sentimento de desconforto que alguém sente ao ter crenças contraditórias ou, mais importante neste caso, crenças contraditas pelos fatos. Nestes casos ou o sujeito muda suas convicções ou nega os fatos.

Especialmente para nós, da Universidade, o problema está na ideia de que é possível agir socialmente como se a verdade não existisse ou fosse irrelevante. Na era da pós-verdade apenas as narrativas têm importância e o fato de se gostar ou necessitar de uma informação é mais importante do que sua verdade. Negar os fatos em detrimento de uma versão mais aprazível da realidade corresponde, em um nível individual, a regredir à idade na qual, por um ato de vontade, desejaríamos tornar o mundo mais agradável aos nossos desejos, prendendo a respiração até que os fatos recuassem ante nossa teimosia. O problema é que sem a referência normativa da ideia de verdade – da ideia de que em cada proposição sobre o mundo seja possível determinar, com um razoável grau de certeza, se o conteúdo desta proposição é ou não o caso –, a arena social certamente sucumbirá ao mais forte ou ao mais dissimulado; aos demagogos e aos tiranos. É o contrário do que significa uma Universidade.

A era da pós-verdade pressupõe o ocaso da verdade como valor estruturante. Pressupõe, igualmente, a destruição do espírito da Universidade. Sem o ethos da verdade que sustenta todo o arcabouço da pesquisa científica (não importa o quanto seja conflituosa a determinação filosófica de seu caráter epistêmico), andaremos entre os escombros daquele projeto humboldtiano que procurava, ecoando um apelo muito mais antigo, aliar o verdadeiro, o bom e o belo numa síntese transcendente; e a maior prova disso será a progressiva importância do nosso caráter escriturário de certificador profissional, da nossa prestação de serviço.

A contradição mais perversa da era da pós-verdade, para nós, é tornar nosso esforço em formar profissionais melhores e mais preparados um mero ato institucional, fantasmagórico, esvaziado de sentido; uma máquina bem azeitada de interesses políticos rasteiros, afetos mesquinhos e resplandecente mediocridade. E, ao fim, faria de nós criaturas muito atarefadas a cuidar de ruínas.


*Daniel Christino é professor da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Categorias : artigo edição 87 pós-verdade

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