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Pamonha

Olha a pamonha!

Estudos analisam relações estabelecidas no processo de produção e consumo de um dos pratos preferidos do goiano

pamonha

Texto: Patrícia da Veiga

Fotos: Caroline Almeida e Alex Maia

Costuma dizer (e escrever) o escritor e folclorista Bariani Ortêncio que no Brasil não há pamonha tão bem feita quanto a goiana. Ele se refere ao senso comum que paira por estas terras. Condizente ou não  com  a realidade,  o que esse pensamento guarda é um querer profundo pelo quitute, feito com milho verde ralado e cozido na própria palha. O apreço atravessa gerações, campos e cidades, passa pelo comércio local e volta e meia está no prato, na panela, nas rodas de conversa, nos fins de tarde. “De sal, de doce, à moda e com queijo”, a pamonha é uma comida e também uma possibilidade de vinculação. Isso tem despertado o interesse de jovens pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), como Tayme Pereira da Silva, egressa da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), que durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) se dedicou a estudar a ocupação do “pamonheiro”, trabalhador envolvido no processo de produção e comercialização da pamonha.

Em 2015 e 2016, ela percorreu estabelecimentos comerciais, acompanhou ambulantes, entrevistou 16 pessoas e traçou uma rede  que  vai do negócio familiar à informalidade. Seus objetivos foram conhecer as condições de trabalho dessas pessoas e compreender que relações são construídas a partir do ambiente laboral. Além disso, considerando que o trabalho pode ser um definidor importante da identidade dos sujeitos, a pesquisadora buscou apreender de que modo o “pamonheiro” enxerga a si próprio e se reconhece na função que exerce.

Tayme reconheceu uma maioria masculina, com média de idade oscilando entre 20 e 50 anos, baixa escolaridade e, na maior parte das vezes, oriunda do interior de Goiás. Ela dividiu seus entrevistados em dois grandes grupos: os que trabalham nas ruas e os que atuam em locais fixos. Os primeiros são vendedores autônomos, cumprem exaustivas jornadas e não possuem garantias no que diz respeito à seguridade social. Já os segundos são proprietários  de  pamonharias, parentes dos “donos” ou empregados registrados  com  carteira  assinada – todos cumprindo oito ou mais horas por dia. Boa parte dos “pamonheiros”, informais ou formais, também colabora na produção da pamonha e trazem em suas trajetórias de vida alguma identificação com esse fazer: ou foram ensinados por familiares ou tinham esse costume em tempos passados.

No que diz respeito à constituição de uma identidade de “pamonheiro”, Tayme constatou que é mais comum os trabalhadores fixos a assumirem.  Entre os ambulantes, a ocupação é associada a algo transitório ou apenas como mais um “bico”, uma fonte de renda. Há ainda outros fatores destacados pela pesquisadora:  “quando instigados a pensar sobre a primeira imagem que teriam de seu trabalho, os vendedores remeteram logo à matéria- prima principal, o milho. Nesse movimento de reflexão, eles não deixaram de elucidar também os processos de produção, o sucesso nas vendas e a qualidade do produto comercializado”.

Conforme os registros de Tayme em sua dissertação, um de seus entrevistados considerou ter o “pamonheiro” o traço de uma pessoa agradável e comprometida, muito em razão das dinâmicas de sua atuação. “Vendedor de pamonha é uma pessoa amiga de todo mundo, como se diz é uma pessoa que trata todo mundo bem, é um bom vendedor, tem que ter jogo de cintura, oferecer o produto de qualidade”, disse a ela José (nome fictício), de 51 anos.

Para a pesquisadora, uma  surpresa negativa nessa investigação foi reconhecer papéis bem definidos no que concerne à  participação das mulheres. “Elas estão nos bastidores, atuando nas cozinhas, na limpeza e em outros tipos de serviços apontados como subalternos”, acrescentou. Tayme entrevistou apenas uma senhora que atua como vendedora e, ao sondar com as demais, ouviu que mulheres são frágeis e mais cuidadosas, por isso assumem tais funções.

Por que o“pamonheiro”?

Um dos motivos que fez Tayme Silva escolher o tema foi o fato de a pamonha ser uma comida tradicional  e, ao mesmo tempo, muito consumida pelos goianos – que a transformaram em opção de lanche e comida rápida. “Com o passar do tempo, a pamonha deixou de ser uma iguaria simbólica das tradicionais reuniões familiares no campo e começou a ser produzida e comercializada em pamonharias, restaurantes e, sobretudo, entre os vendedores de rua [...]. Os processos de urbanização, as mudanças de estilo de vida dos goianos e as transformações socioeconômicas foram fatores preponderantes para impulsionar o aumento significativo do consumo de alimentos fora de casa e, com isto, o desenvolvimento de serviços de alimentação tornou a pamonha uma das alternativas”, escreveu a pesquisadora em sua dissertação. A procura pela pamonha acontece, segundo ela, porque em Goiás há uma “política cultural” construída em torno do alimento. Ou seja, uma espécie de esforço simbólico – empreendido, sobretudo, pela mídia local – de valorizar a comida como parte da identidade do povo goiano e, portanto, um patrimônio imaterial.

Tayme também percebeu que, no campo da Sociologia do Trabalho, poucos são os estudos dedicados às representações sociais dos trabalhadores que compõem o comércio de alimentos. “É importante valorizá-los, reconhecê-los e expor suas condições”, afirmou Tayme que, na graduação, investigou a atuação do vendedor de churrasquinho. “São ocupações pouco prestigiadas pela sociedade, porém, carregadas de identidades”, complementou o professor da FCS Jordão Horta Nunes, quem a orientou nas duas etapas de formação.

A “cultura da pamonha” em imagens e relatos

Caroline Almeida e Alex Maia, graduados em Comunicação Social/ Jornalismo pela UFG, apresentaram em 2016 um trabalho de conclusão de curso (TCC) no formato de livro-reportagem fotográfico cujo foco foi, justamente, a pamonha – ou o que os dois chamam de “cultura da pamonha”. A princípio, os autores estavam interessados em compreender como a alimentação poderia ser motivo de encontro e construção de laços. À medida que foram investigando o tema, lendo e observando o próprio cotidiano, constataram que o gosto pelo que é feito de milho diz de um hábito da cidade. “Não se faz pamonha sozinho. É preciso que as pessoas se reúnam. Essa foi uma característica que nos chamou a atenção. Também nos perguntávamos: como um prato de comida representa tanto na vida das pessoas?”, comentou a jornalista.

Foi então que a dupla, orientada pela professora Rosana Borges, atravessou Goiânia em busca de narrativas que estivessem entranhadas no processo de produção e consumo do prato típico. Uma delas é a trajetória de dona Maria e seu Jorcelim (foto), que há 19 anos trabalham juntos, em casa, produzindo pamonha e curau para vender na rua. Segundo contam Caroline e Alex, o casal já chegou a vender até 500 unidades por dia, percorrendo um total de dez quilômetros pelos bairros da Região Sul da capital. Atualmente, menos acelerados, eles garantem a produção de aproximadamente 150 pamonhas diárias, e seu Jorcelim não abre mão de oferecê-las ao público montado em uma bicicleta. “Nossas pamonhas mataram a fome de muita gente, porque nós não trabalhamos só pelo dinheiro, não. Não teve um dia, nesses 19 anos, que eu não desse pelo menos uma pamonha. Quem precisou, eu dei”, relatou o pamonheiro para os jornalistas, no livro.

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Além dessa história, Caroline e Alex produzem texto e imagens que contemplam o consumo  da  pamonha  na feira livre, na pamonharia e na pamonhada de final de semana (entre parentes, amigos e/ou vizinhos). “Quisemos demonstrar que é algo dinâmico, resiste na metrópole, é passado de geração em geração e ainda pode ser vivido de várias formas”, explicou a jornalista. O livro- reportagem, cujo título é o mesmo reproduzido no início deste texto (“Olha a pamonha!”, o bordão dos vendedores) e cujas fotos ilustram esta matéria, ainda não está disponível para o público e aguarda possibilidades de publicação.

 

 

 

Fonte : Ascom UFG

Categorias : Comportamento Edição 90

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